terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Sashimis, paredes lilás e teus olhos.


Quando criança respondíamos aqueles caderninhos com perguntas que passavam por todos na sala de aula e perguntavam do que gostávamos.
Sempre achei que a real intenção era descobrir quem gostava de quem na sala de aula. Aliás ainda acho.
O fato é que com o tempo percebi que um bocado de resposta que dei naquela época não condizia com a verdade.
Era mais uma vontade de que fosse verdade. Gostava do rosa porque o rosa é bonito...mas nunca escolhi nada rosa para minha vida. No fim sempre escolhi o azul. O lilás. Até o amarelo. Mas nunca o rosa. Acho até que detesto o rosa.
Naquela época eu jamais diria que gostava de peixe cru. Até por não haver provado. Mas principalmente para que nenhuma criança ficasse com nojo de mim.
Hoje sei que gosto de sashimi.
Não, não gosto de comida japonesa. Só do sashimi de salmão e do Sushi Califórnia. Só de pensar a boca fica cheia de água.
Adoro salada. Bacias de salada temperada com limão e azeite.
Descobri que só gosto de feijão feito no dia. Fresquinho.
Requentar feijão, jamais.
Ou seja descobri que sou um ser "fresco", nojenta, insuportável. Odiei isto.
O que me salva é meu prato favorito, algo bem acessível: arroz, feijão, salada de tomate com cebola e ovo frito.
Ovos. Amo. Omelete, cozido, frito, mexido.
Pode convidar-me para almoçar em sua casa pois como praticamente de tudo.
Adoro comida mineira. Mas é que o famigerado peixe cru foi um segredo que guardei por muitos anos.
Agora é moda.

Quando o assunto era roupa as respostas não podiam ser mais mentirosas.
Primeiro por eu não ter nenhum item que dizia gostar. Segundo por não querer ter.
Descobri que prefiro sentir-me confortável do que bonita e que se beleza é fundamental me dei mal.
Roupa para mim não pode ficar caindo, pegando, enroscando. Sapato alto é lindo, mas...só de vez em nunca.
Cabelo? Só não raspei para não chocar a sociedade. Simplesmente não sei o que fazer com os meus. Não gosto alisados quimicamente e , confesso, não gosto do jeito que nasci. Sou obrigada a mentir? Dizer que acho lindo? Mentira! Detesto! Acho eles horrorosos. Mas prometi que este ano vou deixar crescer crespo mesmo. Deus me ajude.
Amor? Amor eu gosto se for leve. Gosto de dar colo mas também gosto de receber colo.
Este negócio de ser dona de casa meio mãe do cabra não é comigo. Se for para rolar troca de papeis prefiro ser a filha. Quero carinho, cuidado.
Sou forte da porta para fora, dentro de casa sou uma criança. Mereço isto e me dou isto.
Pois é...tudo bem diferente do que o último caderninho que respondi no colegial.
Entre sashimis, paredes lilás e teus olhos, hoje sou feliz.
Mesmo sem saber, achei o caminho certo.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

DOLORES


Dolores
Seu nome já era um decreto de dor.
Dor de fome. Dor de medo. Dor de frio. Dor de não ter infância. Sempre fora assim.
Dolores era um mau agouro. Ela sempre tinha certeza que se o nome fosse outro tudo seria diferente.
Depois parou de pensar no nome e começou a ver o mau agouro em si.
Não tinha jeito. Era feia.
Até tentava fazer um charme, mas seu jeito esquelético, seu cabelo sem forma, sua pele manchada, encardida, nada dava a ela a graça de outras meninas de sua idade.
Cresceu maldizendo a vida por sua feiura, e pelo lugar onde nascera.
Um lugarzinho qualquer, perdido no meio do nada, do qual se eu soube o nome um dia, já me esqueci.
Dolores casou! ah, sim! Arrumou um marido! Homem grosso, de poucas palavras, trabalhador honesto que precisou de uma boa moça para cuidar de suas roupas e comida quando sua mãe morreu.
Mas Dolores nunca pode ser mãe e aí creditou a maldição de seu destino, novamente, ao nome. Era o nome maldito!
Seco o útero e seca era ela.
Não viu outras possibilidades, não pensou em estudar, em viajar com o marido... Agora tinha marido, economias, até a pele deixou de ser tão encardida...
Pois bem, não pensou em fazer planos com o marido quando descobriu o útero seco.
Só pensava no decreto que havia sobre ela, por onde fosse o vexame de carregar a dor iria junto.
Rastejava pelo chão pensando no fardo da vida, lavava as roupas com mãos cheias de nódoas, e as roupas ficavam amarelas como eram suas mãos.
Limpava a casa com uma vassoura suja e a casa nunca ficava de fato limpa.
As teias de aranha tomavam tudo e ela dizia: Nome maldito! Nome maldito! Maldito destino de sentir dor!
Não tinha doença alguma no corpo...só era suja e agourenta.
Seus lençóis eram amarelados, suas roupas eram amassadas, seus cabelos embaraçados.
Um dia Dolores acordou e decidiu ir embora.
Ia para qualquer cidade, em qualquer lugar.
Pegou as economias que tinha, que eram até bastante já que não gastava com nem um único corte de vestido. Achava que nada melhoraria o terror de sua feiura.
Deixou uma carta de adeus ao marido, liberando-o para novo casamento com alguém que não fosse seca.
Pegou um ônibus sem destino, e depois outro e outro.
Até que lembrou de uma amiga da mãe, que certamente a receberia.
Lá antes que a outra lhe cumprimentasse ela levantou a mão, quase histérica:
"Não! Não fale este nome! Meu nome é Eulinda! Eulinda e não se fala mais nisto!"
A última vez que vi Eulinda estava bem. Continuava com aquela figura esquelética, mas agora os cabelos eram escovados, brilhantes. Usava um belo vestido floral, fino e leve que lhe dava um ar jovial.
Ouvi dizer que amigou-se com um homem que não pode ter filhos. Ela, generosa, não lamentou por isto.
É dona de casa prendada.
Quando lava as roupas as mãos já não são cheias de nódoas. Agora usa luvas.
Na certidão ainda grita o nome Dolores. Mas ela nega. Diz que foi engano do tabelião e que sua mãe sempre quis lhe chamar de Eulinda.
Vai entender...




sábado, 7 de dezembro de 2013

"Burro bom, carga nele"


"Burro bom, carga nele". Esta foi a melhor que li hoje no perfil de um amigo...
E é verdade.

Ontem confabulava que o verdadeiro gestor trata as pessoas como indivíduos e não os nivela com uma chibata.

Existem pessoas que só trabalham aos empurrões.
Outras que nem assim.
E existem aquelas que saber o que devem fazer e farão.
Um pouco de respeito com estas ajuda a tornar as coisas mais fáceis para todos.

Porém não é o que acontece.
Ainda vemos muitos pensando que produtividade tem algo a ver com ordens e minutos contados.
Prazer em ter poder. Prazer em mandar. Ridículos que inventam ordens o tempo inteiro por ter medo de saírem de seu pedestal e mostrarem que são de carne e osso como todos.
Que riem.
Que cantam.
Que profissionalismo deixou de ser sinônimo de escravidão há muito tempo, que trabalho não precisa necessariamente rimar com enfado e canseira e que absolutamente ninguém nasceu para ser um parasita. Um trabalho bem feito pode dar prazer quando respeitado.
Quaisquer que seja este trabalho.
Basta respeitar a inteligência alheia e você terá excelentes profissionais ao seu lado.
Basta respeitar a limitação alheia e você será também respeitado.
...e vale lembrar o que digo sempre, como já dizia a canção: "Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada". Por isto, gerenciar pessoas deve ser antes de tudo sentir-se como uma delas e não acima delas.
Beijos e bom sábado.
Eliana Klas.

Segundo Tempo: 3.8


Faz muito tempo que não escrevo para postar em meu blog.

Nem mesmo por ocasião de meu aniversário, que foi semana passada, fiz isto.

Também não tenho lido e me abstive de participar de qualquer tema de ocasião.

Precisava de um ano onde tudo parasse.

Longe de tê-lo tido, em meio a tantas mudanças que ocorreram em minha vida neste ano, dei férias ao meu cérebro.
Ele estava precisando.
Quem não nasce com capacidades além da média acaba tendo curto-circuito quando força um pouco o raciocínio.
Acho que foi isto que aconteceu comigo.
Ou talvez tenha sido apenas devorada por meus sonhos.
Nunca vou saber. O fato é que precisei de repouso mental.
É mole?
Não ler muito foi a pior parte.
Evitar os pensamentos incessantes.
Contar carneiros e dormir. Coisa bizarra.

Não sei ainda se deu certo e se algum dia voltarei a ser quem fui, sei apenas que um ano passou...meu prazo acabou.
Tenho medo da pessoa que vou encontrar dentro de mim e um medo maior ainda de encontrando-a não reconhecê-la...

O fato é que, para quem me conhece, tudo vai bem por aqui, obrigada.

Durante este ano a Revista Cruviana foi lançada em versão impressa no Rio Grande do Norte o que me causou profunda satisfação.
O jornalista José de Paiva Rebouças e todos os envolvidos estão de parabéns e sinto enorme honra por ter tido um dos meus textos publicado nela.

Justamente um texto que fiz aos supetões em meio ao que condicionei chamar de ano sabático.
Em 2014 pretendo voltar a fazer o que gosto.
Cuidar de mim.
Escrever.
Pintar.
Ah, e vou lembrar de aprender a fazer algo novo, mosaicos de mandalas possivelmente, assim talvez eu encontre o silêncio que tanto faz falta para minha alma.

Bora lá, que aos 3.8 o segundo tempo começou

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Até quando amar?




Dentro de um certo espaço de tempo, havia um encontro onde ambos estavam.

Este encontro não tinha data prevista e podia levar um longo intervalo, de até dois anos, ou mais.
O fato é que de tempos em tempos, ambos dividiam o mesmo espaço.
Várias vezes sequer chegaram a se encontrar, devido a infinidade de atividades que o evento oferecia e ela passava a maior parte do tempo, tentando descobrir se ele desejava vê-la, como ela ansiava por este reencontro.
Nas pouquíssimas vezes que se viram, nada foi dito,como sempre fora nos últimos 22 anos.

Ela tinha dezesseis anos quando o conheceu, ele 24 recém completos.
Encontro de novela que só não descrevo aqui para preservar a identidade de ambos.
Mas tenho certeza que apaixonaram-se um pelo outro no exato momento que sentaram-se próximos.
Ela, tola, sonhadora, acreditava em tudo que ele dizia.
Ele, louco para impressionar, lhe contava causos sobre tudo que você possa imaginar. E sempre com ares de verdade absoluta.
Oito anos de diferença, hoje parece pouco, mas naquele tempo transformou-se em um enorme abismo entre ambos.
Ela, inexperiente, medrosa, mal informada.
Ele...ela nunca soube. Hoje ela desconfia que ele era tão inexperiente quanto ela.
O fato é que nunca saíram do zero x zero.

Tentaram tornar-se amigos, mas ai doeu mais.

O fato é que foi cada um para um lado, viver suas vidas, formarem-se em suas profissões, formarem suas famílias.
Mas...o tal encontro, este continuava sendo lei, afinal, passava o tempo mas chegava o dia, dia em que ela sabia que ele estava lá.
Nunca soube se causava a ele o mesmo impacto.
Por diversas vezes sequer se falaram.

Mas ontem ela me ligou. Confessou que precisava falar com alguém.
Na tarde anterior havia sido o encontro Internacional, e lá estava ele. O local era aberto, grama verde. Pela primeira vez, assim que ele chegou ela notou um certo alvoroço e percebeu que ele queria falar com ela, e a esposa tentava impedir.
Ele estava agressivo e chegou a ser violento com um amigo que tentou demovê-lo de sua intenção.
Finalmente, a sós, sentaram-se ao lado um do outro.
Ela, apreensiva.
Ele, lindo, exatamente como ela lembrava-se, tocou em seu rosto com ternura e disse:
Quando sairmos daqui, tudo voltará a ser como antes, mas não posso levar mais vinte e dois anos para lhe dizer o que deixei de falar no passado:
Eu te amo.
Levantou-se e foi embora.
Ela, sentada na grama, sorriu.
Eu também te amo, pensou.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

A Minha Paz tem meu nome.


Todos os dias eu respiro fundo e busco dentro de mim o meu melhor.
Todos os dias eu respiro fundo e prometo que enquanto eu estiver praticando este melhor, nenhuma pedra no caminho tirará de mim minha paz.

E estar em paz, algumas vezes, é quebrar tudo na frente do templo.
Quem já leu a bíblia sabe do que estou falando.

Paz não é somente silêncio.
Paz não é somente sorrisos mil.
Paz não é aceitação pura e simples de tudo.
Paz é saber para onde esta indo e não desviar-se do seu destino, ainda que muitas vezes seja necessário contornar montanhas.
Existe um motivo para todas as coisas. Acho.
Eu sei quem sou. De onde vim. Os motivos pelos quais vim.

A minha paz tem meu nome, e ninguém a pode tirar de mim.

A minha paz chama Eliana Klas, tem meu sangue, quente, porém doce. Pode apostar!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um, dois, três...


Tenho frio e sei de onde ele vem.
Vem da fé que me faz falta.
Não acredito mais.
O relógio, só ele existe.
Ele marca o tempo.
Um, dois, três...fim.
Fim.
O meu, o seu.
Nada existe e eu não faço parte de grupo algum.
Nenhuma ideologia pela qual se valha a pena viver. Morreria por todas elas, pois a vida é um fardo.
Todo dia o acordar, o arroz, feijão, beijo na boca e amor correspondido.
Tentas contentar-me mostrando-me os passarinhos, mas eles também nada dizem.
O compasso do relógio marca a angustia do meu peito.
Respiro fundo, tento de novo.
Um, dois, três...cadê o fim?
Ar, preciso de ar e calor.
O relógio irá trazer minha fé de novo.
Um, dois, três...


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vírgulas.


Olhar para dentro e reconhecer-se. Aprender a usar vírgulas.
Descobrir que o amanhã é mistério, e conviver com isto.
Existe um silêncio enorme ao meu redor, em todos os meus sentidos.
Entrego tudo que sou a este silêncio.
Eu que nada temia agora tenho medo do escuro e de minha própria voz.
Temo que ela diga coisas que não pensei.
Tenho medo dos meus sonhos. Temo que eles me levem para onde não sei.
Os dias arrastam-se neste silêncio, e eu, quieta, reaprendo a viver.
Lá fora cai uma chuva fina, de um janeiro que escondeu seu verão.
Cá, com minhas vírgulas,tateando-as, guardo-as para quando o silêncio passar.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

37, e ainda é primavera.


Todo ano escrevo alguma coisa especifica sobre meu aniversário.
Faço anos, já os fiz antes e continuarei fazendo.
Não há nada novo para ser dito sobre isto.
Para quem tem a primavera como berço todo o resto fica pequeno.
Nascer na primavera é poder completa-las eternamente.
É gostar de cada ruga e só não aprovar os cabelos brancos.
Nascer na primavera é permitir-se reaprender a viver.
Feliz dia para mim

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Deste feriado eu só quero as cores.


Deste feriado eu quero mais que os dias.

Eu quero a cor e a poesia que sei existir dentro de mim.

Deste feriado eu quero a inspiração que parece ter sido tomada de mim. Deste feriado eu quero a minha força, aliada ao que preciso para manter minha calma.

Deste feriado eu não quero o sono apenas.
Eu quero as noites bem dormidas e os dias bem claros, bem vividos.
Da vida eu quero pouco.
Quero apenas vivê-la na plenitude do que sei ser capaz.

Sei o que posso e ningúem, além de mim, pode tirar-me isto.

Deste feriado eu quero as cores do meus vasos, vasos que pinto pelo jardim de minha casa.
Quero o silêncio dos que gostam da própria companhia e uma boa música, brasileira de preferencia, tocando na vitrola.
Quero muito, dirão alguns. Eu digo que quero o que posso.
Beijos e bom feriado a todos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Charles Chaplin e outras conversas.



Meus ídolos estão vivos e o acesso às artes em Guaianases???

Todos na esfera virtual já sabem que sou fã (nática) pelo Raul Seixas além de ser fã (muito) do Zé Geraldo. Sou Zégeraldiana e todos por aqui sabem disto.

Sabem que na parede do meu quarto havia diversos quadros com fotos do Raul.
Por sorte ao contrário de muitos eu não posso me gabar e dizer “meu ídolos morreram”. Tenho dezenas de ídolos muito vivos, caminhando pela terra, alguns deles bem ao meu lado. Outros caminham já noutras esferas, todavia permanecem vivos, em mim.

Idolo, é todo ser que foge da esfera medíocre, da simples existência. Eu vivo cercada de gente assim.

Os que morreram ainda vivem em sua arte, e é aqui que entra a novidade do dia: poucas pessoas sabem que também sou fã (nática) do Charles Chaplin.

Pois é. Sou. Sou fã do Charles Chaplin, cineastra, ator, diretor e sobretudo gente. 'Raçudo' como só ele soube ser. Vagabundo? Não, o bicho tinha pedigree, não tenho dúvidas sobre isto.

Na mesma parede repleta de fotos do Raul, havia no centro de todos os quatros um, que peguei do quarto do meu irmão, quando ele mudou-se, e coloquei isto aos (+ ou -) 15 anos de idade, um quadro com a foto do Chaplin, ou melhor do Carlitos, personagem celebre de “O Grande Ditador”.
Sou fã da arte em todas as suas expressões.

O cinema é outra forma de arte que sempre me absorveu e que infelizmente, assim como o teatro, é reservado para poucos.
Guaianases não tem cinema. Pior do que não ter Shopping meu bairro não ter um teatro e um cinema.

Pois é. É desta maneira que querem nos incluir ao todo, negando-nos as formas mais elementares de acesso a cultura.
Enfim...bora mudar de assunto que é pro estomago não embrulhar.
Deixo aqui uma citação do artista, do homem, do mito, da lenda viva Charles Chaplin:

“Nada é tão belo a ponto de fazer as pessoas se esquecerem de seus ovos e bacon no café da manhã; quanto à admiração do mundo, isso vale nada, pois no final só há você mesmo a agradar: você faz tudo aquilo porque significa algo para você. Traballha porque tem uma superabundância de energia vital. Descobre que, além de fazer filhos, também pode se expressar de outros modos. No fim, é você – só você -, seu trabalho, seu pensamento, sua concepção do belo, sua felicidade, sua satisfação. Seja corajoso o bastante para encarar o véu e leventá-lo, e veja e conheça o vazio que ele esconde, e fique diante deste vazio e saiba que dentro de você está o seu mundo...”Charles Chaplin - 1922

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Pulso


Hoje eu sonhei que te beijava.
Te beijava e você andava comigo de mãos dadas, tua mão segurava a minha e seus dedos tocavam meu pulso.

Soltei tua mão, envergonhada, quando alguém apareceu no caminho.
Sorri, pisquei.

“Prometo que serei tua.”

Seus olhos grandes piscaram de volta.
Teus olhos sempre procurando algo em mim.
Sua língua sempre passando pelos lábios. Seus braços cruzados, e eu falando.

Acordei sentindo o seu beijo e passei toda a manhã com o calor dos seus dedos no meu pulso.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Errante.


Quando o pensador; ou mero pensante, tolo e teimoso; sofre, emana força.
Ainda que muitas vezes a luz se reflita em cores escuras, no pântanos e no lodo
O reflexo é luz.
Seu sangue, suas lágrimas, seu suor: tudo transforma-se em arte.
O seu grito, seu sussurro, o seu medo, sua pálida secura, o desespero dos insones: é ali que a arte se consuma.

Na dor, na eterna dor dos que não são amados, no desespero dos que foram abandonados, na fome que sente-se ao sentar-se a mesa, ou no desassossego febril no olho do passante, viciado, doente.
É ali, naquela miséria que nasce a flor, linda, amarela, do meu quadro favorito.

Nas vestes rotas que já colocou sobre a pele, no chinelo podre que quebrou quando ia para a escola, no vestido que usou, e se pensou linda, e na verdade era só era uma camisa velha amarrada com barbante...é nestas lembranças que a moça compõe sua mais doce balada.

É na dor miserável que come o cérebro, das lembranças tenebrosas de uma infância maldita, que o cronista compõe a sua escrita..

É na dor, na insônia, na fome, na ruptura da pele lisa, na boca aberta e seca.
É ali, também, que nasce minha poesia...
Retalhada e feia.
Mal escrita, mal pontuada,sem acentos, mal descrita.
Feia. Mas minha.
Errada, errante, vomito.
Mas minha.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Prudência...e medo.



Prudência e chá de camomila não fazem mal a ninguém.
Sei disto.
Porém prudência em nossa sociedade é sinônimo de medo.
Não basta ser prudente. É necessário tornamo-nos prisioneiros do medo.
Ser prudente é ter grades nas janelas e não andar a noite.
Somos prisioneiros ou cumprimos regime semi-aberto.

Somos assaltados e nos sentimos culpados por isto.
Mas a culpa é sempre nossa?
Somos culpados por sermos bandidos e culpados por não sermos.
Ser bandido não é mais sinônimo de infância pobre.
Não é o dinheiro que temos que compra o caráter dos nossos filhos.
E sempre somos culpados.

Se reagirmos somos culpados pelo tiro que nos mata, ou pela morte de alguém que não teve escolha ou não soube escolher.

Se não reagimos somos culpados por termos sido roubados.
Somos culpados por perder os bens que compramos a duras penas.
Somos culpados por vermos roubado o celular que nem pagamos.
Somos culpados por nos expor ao perigo, afinal, é imprudente querer gozar do nosso direito de ir e vir.

Somos fruto de uma sociedade corrupta e que sendo corrupta nos corrompe.

São 04h35 da manhã.
Acabo de deixar minha filha em seu quarto para dormir.
Assustada, tremendo, com medo.
Tive de, praticamente, colocá-la em meus braços e cantar para ela como eu fazia quando ela era só um bebê.
Não sei cantar, não consigo colocar a letra na música certa...então inventava minhas próprias canções e a embalava para dormir.
Fiz isto até ela se acalmar.

Ela foi assaltada, ao que me lembro, 04 vezes. 02 delas no ultimo trimestre.
Duas vezes no meio de uma singela tarde de sol.
Roubada. Intimidada. Amedrontada. Roubada a luz do dia, nas ruas do bairro onde mora.
A penúltima vez, ás 19h, horário de verão. A luz clara ainda,em uma rua movimentada dos arredores de uma das maiores estações da CPTM de São Paulo, com um fluxo de centenas de milhares de pessoas por dia.
Foi jogada no chão na tentativa de tirar o tênis.
Sua sorte foram os “guardinhas” da estação que correram e apitaram até que os bandidos fugiram.

A última vez foi ontem.
1h30 da madrugada.
Ah, agora sim. Agora foi culpa dela!
Pois é.
Mas não.
Em uma sociedade ideal uma jovem, acompanhada do seu namorado de 19 anos, pode pegar a última sessão do cinema, em um shopping movimentado, e ao final da sessão pegar um taxi para ir para casa.
Na zona leste de São Paulo não.
Ontem deu errado.
Saiu da plataforma principal do metrô Itaquera, rumo ao ponto de táxi que beira a Radial Leste.
Ela e o namorado foram encurralados, amedrontados e roubados.
Ela em pânico temeu pela vida dele. E em pânico ficou.
Desta vez podiam roubar mais que um bem.
Podiam roubar-lhe a vida, a vida de quem ela gosta.
E a culpa?
A culpa é deles, claro.
Afinal quem manda querer ir a última sessão do cinema.?

Em uma sociedade ideal as pessoas não podem ser assaltadas a luz do dia.
Em uma sociedade ideal as pessoas não podem ser jogadas no chão em ruas movimentas.
Em uma sociedade ideal as pessoas estão seguras ao ir a um shopping, ver a última sessão de um cinema e sentir-se-ão protegidas ao caminhar, até um ponto de táxi. (sobre a passarela principal de uma das maiores estações de metrô da zona leste, onde será o primeiro jogo da Copa do Mundo em 2014).
Mas, não moramos em uma sociedade ideal e quem não se aprisiona é culpado por ir e vir.
Em qualquer horário.

(Filha, não permita que o medo de faça prisioneira. Você não tem culpa por acreditar que vive em uma sociedade livre. Te amo.)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Inteira.



Bem, o blog se chama "eu, todos os dias". Isto significa que a casa é minha. Significa também que não estou muito preocupada em falar só de paixão, politica, arroz com feijão ou o que vier.
Tem dias que escrevo poesias pras minhas amigas, e o desejo delas é o meu.
Tem dias que conto a prosa que vejo no olho do moço e ele não sabe dizer.
Tem dias que só digo eu te amo, pro amor que deita comigo.
Mas hoje...hoje. Hoje vou dizer a quem amo, que simplesmente não quero mais.
É isto ai.
Faz parte. Não quero mais que vocês me façam mal. (e leiam o plural da frase antes de darem nomes aos bois).

Lá vai:

Inteira.

"Eu não sei ser rasa e este é meu maior defeito.
Mas algumas pessoas, ás vezes algumas das que mais amamos, não podem sair do nível raso de nossas relações.
Elas fazem por merecer o raso de nossas vidas.

Por mais que a amemos, nunca nada do que fizermos será suficientemente bom para que elas sejam capazes de demonstrar que se orgulham. Que está bom.
Tudo, todos os nossos esforços, todos os diálogos, todos os abraços, todas as conversas, todas as tentativas de aproximação sempre resultarão em criticas.

Algumas pessoas simplesmente não sabem receber o amor sem mágoas.
Elas são incapazes de compreender que você as ama apesar de todas as mesquinharias que elas insistem em cometer durante toda a vida.

Elas são egoístas demais para enxergar algo além da própria conveniência.

Amar as vezes é dizer não.
Não quero vocês em minha vida exatamente por que amo.
Amar vocês me faz mal."

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Bom dia.




Estou pouco me lixando pro seu conceito do que é política. O meu é este.
Consciência. Dignidade. Comprometimento ao menos com a própria consciência.
Não sou filiada a nenhum partido politico. Ainda não sei em quem vou votar. Ah, e devo avisar que não pretendo me filiar a nenhum. Mas não vendo minha consciência.
Não calo a única coisa de realmente minha, eu, que nada tenho de meu.
Só tenho minha voz, e às vezes nem isto.

Estou com nojo e vergonha de ser paulista. Não pela minha São Paulo, mas pelo que se vê pelas ruas.
Não tenho nojo da sujeira, nem das pessoas que vagam, tenho nojo do que tem sido feito pra esconder isto.

Desesperança.

Ler "Paixão Pagu"(edt Agir) fez-me lembrar de meu Pai.
A decepção dela lembrou-me o semblante de meu Pai quando voltou de CUBA.
O sonho dele era conhecer Cuba.

Conseguiu isto através de sua doença. 80% do corpo tomado pela psoríase. A tia pagou a viagem para tratar, em 1998.
Quando voltou a decepção era latente.
Nunca mais ouvi ele falando de Cuba.

"Então a revolução se fez para isto" (pergunta feita por Pagu na página 150 do livro que é sua autobiografia precoce) é a pergunta que eu via nos olhos de meu pai.
É a pergunta que eu me faço sempre.
Esta coisa de largar tudo pela causa. Virar mito, e no entanto, a decepção, profunda.

Enfim...eu ainda acredito na transformação.
Acredito no poder que o conhecimento dá a uma pessoa.
Poder de escolha, que muitos não tem.
O direito a educação de qualidade, que ultrapasse os limites culturais, direito a oportunidade. Acredito apenas nisto.
Acredito que apenas ensinar a pescar é ridículo se você não der o acesso ao lago, ao rio, ao mar. SE não der também a primeira vara, a primeira rede.
Ensine alguém a pescar e lhe dê o deserto. Me diga que peixe esta criatura irá pegar???

Enfim, isto tudo ai é um bom dia.
Desculpe o mal jeito. Eu nem acordei ainda.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Só Você.


O barulho das paredes cai sobre mim.
Não, as paredes não caem.
O barulho cai e me enterra embaixo dos seus pedregulhos.
Pedregulhos de vozes que gritam, de carros, de venenos destilados.
São pedras enormes de um barulho repugnante.
O barulho causa náuseas.

As paredes estão frias, o chão está frio.
O chão,embaixo dos meus pés sem meias, está tão frio que eu penso ser de gelo.
De gelo também é o ar e as pontas dos meus dedos.
Lá fora posso ver as poucas árvores que restaram no terreno em frente de casa...construções mal feitas, gente que passa sem olhar para os lados.

Fecho as janelas, todas, fecho também as portas.
Fecho a casa toda para reter o calor e deter o barulho.
Apago as luzes para que ninguém saiba de mim.

Entrego-me ao silêncio, ao calor.
Acendo a luz, novamente. Só uma.
Conto todas as contas do meu colar, todas as conchas do meu tesouro.
Leio todas as revistas velhas, relidas muitas vezes.
Releio o livro que gosto.
Evito escrever.
Aos poucos o frio dos meus dedos vai desaparecendo.
O chão derrete seu gelo embaixo dos meus pés.
O silêncio, maravilhoso, aquece minha pele, desce por minha coluna, retira toda dor.

Só não posso abrir as janelas.
As portas, elas precisam estar sempre fechadas.
E as luzes, apagadas.
Deixo só uma lâmpada acessa.
Só para te enxergar ao meu lado.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Vem...

(Os rabiscos abaixo deviam ser trechos de uma música...Sairam de dentro de mim em forma de canção, no calçadão. Sabe como é? Daquelas cantorias bobas, pra receber a tarde???
Pois é...são só rabiscos bobos, mas toda sexta-feira merece uns instantes de bobeira.)


Larga mão de ser tão sério e vem.
Se você quiser, eu quero.
Larga tudo e vem.
Se você me olha eu mostro, se você me beijar eu beijo se você me chamar eu vou.
Deixa tudo pra lá, e vem.
Se quiser falar, eu ouço,
Dou meu ouvido para teus ais e minha boca para sentir teus sais.
Ah, se você quer brinquedo eu brinco,
Se você quer chamego eu dengo, larga tudo e vem.
Ah...larga de ser assim tão certo, erra tudo e vem...

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Avesso

O avesso de minha vida é o meu medo.
O nada, este escuro infinito,
A finitude dos corpos e o cheiro de barro.
O cheiro de barro, de lama. E a chuva que não para, dentro de mim.
Este avesso que revela a costura mal feita, o rasgo, o talho em um tecido que parecia tão belo.
O momento em que a linha e o pano se confundem, no avesso.
É neste avesso que moro, que sou, que me desconheço.
Neste avesso que não entrego, que nego, que escondo.
E é ele que complica tudo.
Neste avesso em que me perdi, não sei revelar o que fui.
Sei que estive lá, que de lá fugi e hoje não sei voltar.
Meu medo, meu grande medo, é voltar pra lá sem perceber.
No avesso desta que hoje sou está escondida a linha que desmancha toda minha vida.
No avesso de mim, mora alguém que não conheço...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Espirro do anjo

Este texto foi publicado originalmente no blog "Aspirinas e Urubus"...http://aspirinasurubus.blogspot.com.br/2011/06/o-espirro-do-anjo.html
percebi hoje que tenho vários textos lá que não publiquei aqui...acho que vou trazê-los todos para cá...
começo por este, em homenagem a um amigo querido.


O Espirro do anjo.

Hoje, ao sair de casa, pude por alguns minutos observar meu vizinho pintando as grades do portão de sua casa.
Casa onde mora com sua esposa e seu filho caçula.
Enquanto eu o olhava minha mente foi inundada por recordações de uma infância que parece ficar cada vez mais remota.
A casa dele, assim como é a minha, pertence a sua família a mais de três décadas.
Faz tanto tempo... Mas olhando-o lembro que já fui criança um dia.
O mandamento de me tornar como uma criancinha ou não verei o reino dos céus parece ter sido esquecido por mim há muito tempo.

Olhando-o lembrei de alguns poucos dias nos quais eu ser uma criança não era feio.
Sim, pois tem pais que ‘teimam’ em criar seus filhos não para serem adultos honrados, mas como se já fossem adultos.

Olhando meu vizinho hoje cedo eu me lembrei – me do pai dele: Senhor Vicente...
‘Seu Vicente’, para os íntimos, o caminhoneiro da ‘cegonha’.
Todos que moram a mais de 20 anos na Rua ‘da Biquinha’ lembram dele, posso apostar.

Caminhoneiro por profissão ele se ausentava por longos meses.
Mas se existe algo que ficou em minhas memórias de infância são os gritos de alegria dos seus filhos quando entre uma e outra carga ele ficava algum tempo em casa.

Lembro-me de em uma noite fria; ao menos em minha memória aquela noite foi mais fria do que as outras e a solidão infantil doeu mais no meu peito; pois bem na tal noite fria, que não posso datar tanto tantos são os anos que de lá pra cá se foram, mas arrisco que eu devia ter no máximo 6 anos, portanto lá se vão 30 anos, na tal noite o caminhão dele ‘pousou’ em nossa porta, explodindo com seu ‘barulhão’.
.As crianças, meus saudosos amiguinhos de infância, desceram por seu longo quintal gritando:
Pápa!! Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!!Pápa!!! (Os filhos os chamavam de Pápa, sem o ‘i’ no fim, se sobre o frio não posso dar certeza, isto eu afirmo!)
Ouvi os passos rápidos deles no corredor ao lado de meu quarto e depois só a bagunça de gritos e muitas risadas.
A alegria deles com a chegada do pai foi algo que nunca esqueci.

E o ‘Seu’ Vicente mudava meus dias também.
Os espirros dele são lendários.
Até hoje tento imitá-lo.
Eram daqueles espirros de fazer gosto, bem altos, bem molhados, espirros dado por gente que não tem medo de ser feliz.
Depois, às seis da manhã, ele colocava o “bichão” pra aquecer o motor.
Eu ouvia os meninos mais velhos dele o ajudando com o caminhão.
Aquele ruído logo cedo não incomodava.
Eram ruídos de crianças felizes.

Não sei que tipo de pai ele foi.
Não sei se seus filhos têm dele boas ou más recordações.
Mas sei que em mim ele deixou doces recordações de infância.
Lembro que ele organizava competições entre as crianças na rua.
Competição de corrida pelo quarteirão.
‘Seu Vicente’ dava dinheiro a quem ganhasse e doces para todo mundo.

Estas eram uma das poucas vezes que eu me permitia competir.
Nunca gostei de esporte de competição.
Meu fôlego sempre faltava e eu ficava envergonhada por perder.
Mas com o ‘Seu’ Vicente por perto não era assim.
Ele chutava para longe minha vergonha de ser criança.
Ele nos empurrava e dizia: “Vamos menina, vamos, é só uma brincadeira!”

Ele construiu pouco a pouco a casa que deixou para os filhos, durante a construção com a chegada dos blocos, das pedras e areia, ele pagava a molecada para carregarmos bloco, areia, pedra, quintal acima.
E fazia isto de um jeito tão divertido que nem notávamos que ele estava nos ensinando o valor do trabalho!
Outra lembrança boa: as moedas que ganhei carregando os blocos da construção da casa do ‘Seu’ Vicente renderam bons lanches de “pão-com-ovo” que eu comia me lambendo, seguida por minha mãe e irmã do meio.
E renderam também muitos chocolates que tinham um sabor melhor pois eram comprados com meu dinheiro!
‘Seu’ Vicente em casa era certeza de fartura até para os vizinhos.

Ele se parecia com um anjo moreno.
Era redondo.
Bem redondo mesmo.
Seus cabelos cacheados.
E no rosto sempre um riso fácil.

Hoje, ao ver meu vizinho, seu filho do meio, pintando o portão, imaginei o ‘Sr’ Vicente ali ao lado do filho, sorrindo.
Anjo moreno, agora com asas.
Meu coração se encheu quando eu consegui ouvi-lo dizer:
“- Vamos menina, vamos, é só uma brincadeira!”
Sorri.
Meus lábios quase se abriram em resposta, mas achei melhor não assustar as pessoas falando com quem já não se vê entre nós.
Em silêncio respondi:
_ Eu prometo que vou, ‘Seu Vicente’. Prometo que não vou esquecer que isto aqui não passa de uma grande brincadeira.

Sai de casa jurando brincar como uma criança todas as vezes que me permitirem.
- E quando não permitirem, ‘Seu Vicente’, prometo fazer bagunça, muita bagunça

quinta-feira, 29 de março de 2012

Nação estuprada.



Eu nasci em meio à ditadura.
Cresci ouvindo o nome desta megera deformadora de almas que não era personagem de ficção.
Ela tinha nome e usava farda.
Lembro de meu pai falando dela, de seus gestos eloqüentes e indignados, quando falava de um ou outro amigo desaparecido.
Cresci sem entender um Estado que deveria nos proteger, todavia, canalhamente, torturou, estuprou e matou civis.
Era assim que eu via, era isto que eu entendia da tal ditadura.
De tempos em tempos eu ouvia noticias de que meu pai andava escrevendo coisas que poderiam prejudicá-lo.
E um pouco do medo dele se tornava meu também.
E eu nem sabia o que ele fazia de “errado”.
Era um medo que nascia sem que eu soubesse onde era seu berço.
Ouvia meu pai falando de amigos, anônimos, que sumiram, outros que pela tortura enlouqueceram.
Lembro de seus olhos marejados, a boca fechada em angustia, as mãos fechadas em dor.
Fantasma assustador era a tal ditadura.
Ela escondia pessoas e depois as devolvia, loucas, aleijadas, destruídas.
Ou ainda, jamais as devolveria...
As pessoas eram presas, e sob a tutela do Estado, desapareciam.

A ditadura matou, torturou e destruiu não só o individuo que levou sob o peso de sua mão.
Ela fez isto com os familiares de cada pessoa morta, torturada ou desaparecida.
Toda a família era despedaçada, e ainda é, mil vezes, sob o peso da injustiça.
Não quero imaginar o que é ter um(a) filho(a), um(a) irmão(ã), o(a) esposo(a) desaparecido(a).
Andar pelas ruas em uma vã esperança de tudo ter sido um pesadelo medonho e que, um dia, teu amor regressará.
Desaparecer na ditadura é deixar para quem procura a certeza da morte e a dor de nunca dizer adeus.
Não podemos seguir adiante sem jogar luz sobre este passado tão recente e que muitos querem que permaneça no escuro.
Precisamos juntar nossa voz em um só clamor pelo desarquivamento dos arquivos da Ditadura e pela revisão da Lei de Anistia.
O meu grito é o grito anônimo.
Não entendo de leis, mas me causa assombro uma lei ser usada para livrar assassinos e torturadores.
Quando menina a Lei da Anistia soava aos meus ouvidos como canção libertadora, hoje sinto que ela nivela vitimas e algozes.
Seqüestro, tortura e assassinatos cometidos sob a proteção do Estado não podem ser crimes políticos.
Torturadores não podem andar sorrindo livremente enquanto famílias inteiras foram despedaçadas. Isto não pode se repetir.
A luta para que o passado não caia no esquecimento não pode ser somente dos familiares e das vitimas.
Hoje nossa voz deve ser a voz de todo um povo.
É urgente a criação de um mecanismo, uma norma, que não permita que o Estado anistie seus próprios agentes.
Permitir o esquecimento dos crimes de seqüestro, tortura e assassinatos nos anos da Ditadura é o mesmo que permitir que o Estado estupre toda nossa nação, novamente, sob a sombra da lei.

Este texto faz parte da 5ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR

http://desarquivandobr.wordpress.com/2012/03/18/convocacao-da-5a-blogagem-coletiva-desarquivandobr-3/

"Nossa luta é por justiça e pela preservação da memória. Para que se conheça, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça."

quarta-feira, 28 de março de 2012

E se ?

(Este texto é mais um dos rabiscos de outono)


E se?
Se um dia, loucos e vadios, desistirmos da postura séria e dos compromissos éticos e assim, desnudos de aparências nos jogarmos na boca, um do outro?
Este envolvimento não terá nome.
Não terá nome, mas terá hora.
Horas de esquecimento físico, totalmente entregues ao sabor dos nossos corpos, e de alguns versos, que diremos rindo, bêbados de poesia.
Ah, se perdermos o chão, e jogarmos longe toda prosa, ficarmos só eu e você, no tato, descobrindo o que não se pode ver?
E ai? Que importância fará?
Não muda nada.
O céu continuará sendo céu, a serra continuará sendo serra, a vida pra ganhar custará tanto quanto antes.
Em um tapa aos bons costumes não fará importância alguma se não ligares no dia seguinte, e não será preciso explicar nada, só será necessário grudar sua pele lisa no meu rosto e pedir de novo o que já te dei noutro dia.
Só vinho, musica poesia e sexo.
E sem nenhum problema em ser assim.
Se perdermos a compostura, e brincarmos algumas horas de não sermos ninguém?
Sermos bichos, sermos personagens, sermos crianças sem nome.
Minha coxa lisa em seus cabelos desalinhados.
Sua boca úmida em minha pele quente.
Minha boca quente em sua pele úmida.
Compasso, ritmo, risos.
Sem nomes, sem rótulos.
...e se?
Se, seria.
Se, faria.
Se, daria.
Se...



quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulher, gente e ponto!

Eu não ia escreve nada sobre o dia internacional da mulher, mas diante do tanto de marmanjo chorão com que eu me deparei hoje sou obrigada a meter minha colher neste caldeirão de mensagens e textos que temos hoje.
O que tem de homem indignado com o dia da mulher não é brincadeira.
E o comentário que mais ouvi foi de que deveria ter o “dia do homem ” também.

Meninos, parem de birra!
Se vocês querem colo é só falar que a mulherada dá.
Alias damos colo, damos abrigo, damos o sangue, damos a vida e o mais que precisarem.

O que está em questão não é um dia para homenagear as mulheres.
Esta data é um dia para refletir sobre a luta por igualdade.
Veja bem meninos, foi preciso muita luta para que a mulher conseguisse o direito de ser Gente.
Gente e ponto. É só isto que queremos.
Não queremos ser mártires, nem musas, nem rainhas...só queríamos ser gente e como tal ter seus direitos preservados.
Direito a vida e a livre manifestação de Ser.

Quando mencionei que esta data relembra as operárias que foram mortas em uma fábrica ao lutar por seus direitos, o balconista do restaurante onde almocei alegou que milhares de homens morrem em guerras e nem por isto tem um dia para eles.
Estes morrem pela causa, seja ela justa ou não, mas é pela causa.
Não morrem simplesmente por serem homens.

Mulheres são mortas, algumas vezes ainda no ventre, só por serem mulheres.
Por séculos as mulheres foram impedidas de aprender a ler e escrever simplesmente por serem mulheres.
Mulheres são humilhadas, agredidas, estupradas e mortas por serem vistas como um objeto ao prazer de certos tipos de homens.
Mulheres, a despeito de sua capacidade, muitas vezes são remuneradas com salários menores, simplesmente por serem mulheres.
Mulheres não tinham direito ao voto, só por serem mulheres.
Entendem? O argumento é: não pode, pois é mulher!
Ou então: não pode, não vai, não deve, pois é “minha mulher”!
Ou ainda não quero, pois é mulher!
Percebem?

Meninos parem de birra!
Acreditem, tudo o que queremos é não precisar de um dia para lembrar a sociedade de que somos gente, tão gente como vocês do outro gênero, e não abrimos mão disto!

Por hora é só...
E feliz dia das mulheres!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Alice

De todas as maneiras de amar, não há outro jeito que eu possa entender, do que assim, doendo, doar.
Não me pergunte o que sinto ao te amar, mas só posso sentir que o mundo começa e termina neste seu olhar.
Se soubesse que doeria tanto, eu escolheria não te amar, não deste jeito tão desmedido.
Parte de mim, menina minha, por que saíste de mim e e as vezes me roubas teu olhar?

Pequena e frágil que eras, medo de quebrar-te ao meio, hoje medo de quebrar meu peito
Se no meu peito parte maior é tua, se ao parir me tornei maior, melhor, se os teus olhos são como os meus, o que posso fazer?
Você tem seu destino a frente, um universo onde não quero dominar.

Quero uma pequena parte do mundo que será seu, quero meus olhos nos teus olhos.

Quero tua lembrança doce no findar da lida quando lembrar que me teve por mãe, quero um sorriso nos lábios quando pensar em mim, quero que me tenhas um amor que não seja um fardo, e que este amor que me consome seja uma chama benéfica dentro do teu peito, a te aquecer por toda a sua vida.

Filha, Feliz Aniversário.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fome.

Ele se enrosca em um canto do quarto e espera que passe logo.
Mas não passa.
A agonia que o consome devora sua mente, produz sensações que vão da tristeza a dor, em poucos instantes.
Dói. Dói o peito, dói a alma envelhecida antes do tempo, dói a falta do leite, o leite quente que aqueceria seu corpo pequeno.
Mas o calor não vem, e o corpo se ressente.
Frio. Mais frio do que pensou que podia suportar.
E aquele ar pesado, que consome tudo ao seu redor.
A luz do quarto sendo acessa lhe faria pensar que alguém está chegando.
Mas ninguém chega.
Aquela dor tem nome, agora ele sabe, é fome.
Fome. Fome que humilha seus sentidos e o faz sentir-se como um verme.
Queria ser um cão.
Um cão, ainda que sem dono, mendiga, sem vergonha, um pão que lhe alimente.
Mas ele não. Ele tem vergonha de mendigar.
Vergonha de sua fome.
Vergonha de seus braços tão pequenos que nada produzem, ainda.
Vergonha de seus cabelos, sempre lavados com sabão.
Vergonha de suas roupas sempre encardidas.
Vergonha das unhas, que não sabe cuidar.

Vergonha de ser gente e de querer ser um cão.

Naquela hora, ele sente fome e frio.
Não há outra sensação que possa lhe alcançar.
Ele fica quieto e dorme.
Dorme.
Irá passar durante o sono.
Ou quem sabe irá acordar e no meio do quintal o estará esperando o boneco que pediu no Natal?
...ele é gente e queria ser cão. E sendo cão, queria não mais acordar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Segredos de menina.

Eu era só uma menina, e era bom.
Os prazeres eram simples,os contatos suaves, e as descobertas constantes.
Éramos um grupo de 10 crianças, todos da vizinhança, entre meninos e meninas.
Brincávamos muito de "esconde-esconde", sabe né? Um grupo se esconde, enquanto um tem a missão de procurar. O primeiro a ser encontrado começa tudo de novo.
Nesta fase já começam a despertar os primeiros interesses pelo sexo oposto (ou não, vai de cada um) e quase sempre na hora de esconder procurávamos ficar perto de quem nos interessava.

Uma tarde eu me enfiei em um canto, atrás de uma pilha de pneus gigantes.
O garoto mais interessante da turma veio se esconder ali também.
Ficamos pertos o suficiente para eu sentir o calor do corpo dele, misturar ao meu.
O peito dele tocava minhas costas e eu podia sentir sua respiração em minha nuca.
Parte do braço dele tocava o meu.
Silêncio.
Só o cheiro dele e seu toque, sutil. O resto todo havia sumido.

Logo os amiguinhos foram sendo encontrados, mas nós dois ficamos ali, imóveis, fingindo não perceber que já era hora de sair.
Eu, imaginando se ele estava sentindo o mesmo que eu, aquele desfrute inocente do corpo do outro.
Subitamente, o gesto:
Virei o corpo lentamente, fiquei na ponta dos pés e lasquei um beijo, em seus lábios.
Não fiquei para perceber a reação, sai correndo, rindo.
Depois ficou aquele olhar cúmplice, de um segredinho só nosso, sempre que brincávamos de esconde-esconde, dávamos um jeito de nos esconder juntos...nunca mais houve outro beijo, mas ambos sabíamos o quanto era bom sentir o contato, ainda que vago, do corpo do outro. E nos bastava isto:
O calor, o cheiro, o leve roçar dos braços e o tempero fundamental: era o nosso segredo, inocente e saboroso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Para não esquecer...

Durante as férias, uma de minhas importantes atividades foi o ócio.
Costumam dizer que ele é criativo.
Sei lá.
Meu ócio foi contemplativo.
Mas pude chegar a algumas conclusões, que de tão obvias, assustam, pela quantia de vezes que as esqueci.
Divido, algumas destas conclusões, com vocês meus amigos:

1º Quando se trata de nossos pais, os 100 anos sempre serão poucos.
Não me digam que 70 anos é velho. Não para minha Ana Klas.

2º Moramos perto do litoral. Devemos lembrar disto sempre, mesmo no meio do metrô lotado.
Poucas coisas na vida são tão maravilhosas quanto um bom mergulho no mar. Um só dia vale a pena. Não é preciso esperar por feriados, ou mil planos. Oito horas jogada na areia fizeram milagres por mim.

3º Dormir é bom. Dormir é muito bom. Mas a vida passa enquanto dormimos demais.
Vontade de acordar é fundamental para ter vida com qualidade. A vida só acontece quando estamos acordados.

4º Os filhos podem ser o motivo que nos falta, para quase tudo de bom que devemos fazer na vida. Mas não para tudo. Duas ou três coisinhas devem ser feitas por puro egoísmo.

5º Quando fizer um evento importante, do qual queira uma bela recordação, nunca, em hipótese alguma postergue a contratação de um bom profissional. Não confie nem mesmo em seu melhor amigo para tirar as fotos...

Por hoje é só.
Beijos
Eliana Klas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Saúde.

Termino o ano com a certeza de que quase todas as coisas são incertas mesmo, e que não há nada que se possa fazer sobre isto.
Já descobri que quando a doença chega, não há jeito de sair pela outra porta e fingir que não notou sua chegada.
E se a dor do outro te fere, fica quieto, que não há outro jeito.
Amor também é isto. É sentir a dor do outro e tentar tirar a dor dele, fingindo que não é nada.
A dor de quem ama, vai doer em sua carne e não haverá nada que será feito sobre isto. A dor do outro não é sua, e muito embora te doa, você não pode fraquejar... afinal, não está doente.
Hoje sei que ter saúde é realmente o mais valioso bem que alguém pode possuir.
Seja este então meu pedido de Natal:
Saúde, saúde, saúde...para mim e para os que amo. Saúde até para meus desafetos, saúde, para todos

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Vida e Morte de cão.


Eu tinha uma cachorra que não era bem minha.
Alias, era minha, mas eu só descobri no fim.
Ela morava lá em casa, mas nunca foi de ninguém.
Coisa triste a vida dela. Sempre achei.
Mas por fim...acho que ela foi feliz.

Algumas semanas depois que me casei, meu marido, agora ex, apareceu com ela.
Eu, idéia fixa de não ter mais animais, fiquei ‘fula’.
- Pelo amor de Deus, para ter um animalzinho é necessário cuidar, dar vacinas, banho, ração adequada para a raça, passeios, carinho, atenção... Não é só jogar o bicho pelo quintal com um punhado de água e pão duro!
De contrapartida ele alegava que o bicho, que se criava na rua, havia sido atropelado por seu pai, e não duraria muito.
Falou que ela ‘estrebuchava’, gemia e babava e sendo assim, certamente morreria naquela noite.
- Criatura, e você a trouxe para morrer aqui? O certo é levar ao veterinário!

Corri para dar uma olhada e lá estava ela:
Em pé, no meio da garagem.
Não parecia a beira da morte.
Alias ninguém diria que um carro, com meu sogro que não era nada magro, pudesse ter atropelado aquele bicho.
Devia ter 8 meses, talvez.
Sem raça definida. ‘vira-latas’, dons bons.
Arisca, não deixava que a tocássemos.
Eu levantava a mão para acariciá-la e ela já corria para se esconder.
Não era possível lhe fazer um afago.
Eu a chamei pelo mesmo nome que chamei todas as cachorras que tive, em minha infância: “Póquinha”.
Sem nome seu, sem afago e sem jeito, ela ficou.
Tinha ração, água limpa e cama.

Ficou e fez parte da família.
Sabe aquela prima chata? Era ela.
Sabe a aquela tia birrenta? Era ela.
Sabe aquele parente interesseiro? Era ela.
De nós só queria a comida, a água, a dormida.
Mas ficou, e ficou por mais de 13 anos.

Quando me divorciei os cachorros ficaram comigo.
Ela e outra que ele trouxe depois.
Foi ai que descobri que a Póquinha nos amava.
Ela abanava o rabo toda vez que meu ex-marido vinha no portão.
Sinto que ela sempre achou que ele a levaria com ela.
Nestas horas ela me olhava com pena.
Queria tê-lo perto, mas não queria ir.
Mas, ela teve de ficar.
E ficou.
Novamente.
Por quase 04 anos.
Já velha e doente, pior ficou.
O câncer começou a devorá-la de dentro para fora.
Lenta e silenciosamente.
Quando demos conta, já era tarde.

O veredicto dos demais moradores do quintal era um só:
- “tem que sacrificar”.
...eu fui contra.
- “Mas gente, ela abana o rabo, se alimenta, bebe água e dorme.
Nem um gemido dá. Não está bonita é verdade...mas, mas...”

O veterinário desenganou.
Era questão sem solução.
Mas determinar a morte dela, pelo bem dos olhos e narizes alheios, me repugnou mais que o cheiro dela.
A defendi da morte certa, por longos meses e enquanto ela abanava o rabo.

Só ai eu soube que ela era minha.
Ninguém conseguia tomar uma única decisão, sem que eu desse a palavra final.
O veterinário foi e voltou mais de uma vez, mas ninguém conseguia tirar de mim o peso de decidir.
Dizer sim para a morte de quem amamos é coisa bruta.
Soco, no estômago.

No último feriado deste ano o veterinário veio pela última vez.
Pela primeira vez em sua vida de cão, ela aceitou meus carinhos.
- “Vai com Deus minha querida. A gente se encontra um dia.Acho.
Eu te amei.”

Virei às costas e deixei minha família lá, olhando seus últimos minutos.
Eu não pude olhar.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Contando as primaveras...

Depois do evento “maternidade” o tempo começou a passar tão depressa que nem me dou conta, e lá se foi outra primavera.
Logo vou começar a contar os “outonos” e se tudo der certo chegarei aos “verões”.

Minha primeira festa de aniversário foi aos 11 anos.
Antes disto eu tive uma dificuldade enorme de fazer a conta certa, e saber minha própria idade.
Eu sempre fazia a conta a partir do meu ano de nascimento, o que me dava um ano a mais, durante todo o ano, uma vez que completo ano no último dia do penúltimo mês.
Mesmo depois que entendi a coisa toda, continuei a mencionar minha idade pelo ano.
Mas, a partir de agora, acho que vou rever isto.

A coisa começou a ficar complicada, e eu quase não tenho certeza de quantos anos vou fazer.
Consulto o calendário e verifico que vou fazer 3.6.
Boa. Gostei da combinação dos números.
3.6.
Descobrindo que minhas armas, antes ferramentas de combate, hoje pesam.
3.6
Aprendendo a baixar as armas.

Aos 15 anos uma pessoa de 36, aos meus olhos adolescentes, era alguém “madura”, realizada, sem dilemas emocionais...
Grande engano.
A alma amadurece mais lentamente que o corpo.
As ruguinhas não perdem tempo e se multiplicam velozmente.
A genética da família favorece os cabelos brancos, tenho-os, aos montes.
Já a alma...a alma parece bem menos madura do que eu imaginei aos 15 anos.

Gosto das minhas marcas temporais.
Eu só desejo que minha alma acompanhe a passagem do tempo.
Que a tal sabedoria não espere tanto para tomar conta de minha essência.
Que os anos não tirem de mim o viço, o riso, o gosto, mas me acrescentem a capacidade de reaprender a respirar.
Que ao contar meus anos, eu lembre que só não os faz, quem morre antes.
Quero chegar ao fim da lida colecionando anos, vários novembros floridos.
Eu nasci na primavera.
Portanto irei contar primaveras sempre, mesmo quando o verão já estiver instalado em meu corpo.
Enfim, feliz dia meu, para mim.
Feliz novembro, 3.6.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O céu de novembro e os líderes anônimos...

Eu estou na turma do contra, teologicamente, ao menos.
Olhando o céu azul, céu de novembro, penso que está tudo indo a passos lentos rumo a perfeição.
Boa parcela das pessoas que conheço reza o mantra do “mundo está perdido”, “tudo será destruído”, “Deus está desapontado com sua criação” e por ai vai...
Eu sou da turma que adorou o marketing : “Os bons são maioria...”
É fato que os bons não se organizam como os maus, mas isto é assunto para outro dia.

Sou apaixonada pelo Deus que eu creio.
Se Ele existe ou não já é outro problema dos grandes, mas prefiro deixar para descobrir isto lá no fim, na hora certa, ou será melhor dizendo na mais incerta das horas, a hora final.
Por hora me satisfaz amá-lo, perdidamente.
Meu romantismo me permite continuar crendo. Apesar de tudo e através de tudo.
Sendo assim, adoradora, creio que Ele, já sabia de tudo que iria acontecer, e que sendo assim tudo está no seu perfeito controle.

Não tem nada perdido por aqui não.
O ser humano está se encontrando, a duras penas, mas está.
Falam-se das desgraças atuais, com se elas fossem novidade.
Novidade, na verdade, é a internet que permite que a informação seja vinculada com maior velocidade e alcance.
O homem já fazia das suas sandices desde que Caim matou Abel, e continuou fazendo.
A diferença é que agora tudo é público e notório.
Sendo assim a lei também busca se aperfeiçoar.
Antes matávamos os assassinos, nos igualando a eles, hoje, uma parte da sociedade busca entender o que tornou uma pessoa assassina, para que mais pessoas não sigam o mesmo caminho.
Uma parte da humanidade reconhece que cada um de nós carrega no peito uma arma empunhada, e que o grande diferencial é descobrir o motivo de alguns apertarem o gatilho, e outros não.

Deus deu sabedoria ao homem, e nós, reles mortais, achamos que sabíamos mais que Ele.
‘Danamos’ a destruir tudo para fazer do nosso jeito. Não nos tocamos que “do nosso jeito” a coisa ia desandar, a Terra ia gemer, e o “bicho ia pegar”.
Ele, o Criador da coisa toda, deixou a gente ir, até onde podia. E quando vimos no que ia dar, resolvermos fazer o caminho inverso.
O homem está voltando para onde tudo começou.
Enfim, tomamos o caminho de volta.
Estamos aprendendo a olhar para dentro, para o planeta, estamos descobrindo que no final das contas, Deus é que tinha razão quando criou a lama e os vermes.
Descobrimos a duras penas que tudo tem sua função no sistema da vida.

Claro que para ser otimista assim é necessário acreditar na eternidade da alma.
Crendo nisto é possível olhar pro alto e pensar, que no fim de tudo, o Pai deve estar orgulhoso de nós.
Não falo da maioria, mas falo de uma minoria capaz de mudar toda a História.
Falo de uma humanidade que criou Hitler, mas também criou líderes anônimos que lutam todos os dias nos partidos, nos sindicatos, nas associações de bairro.

Enfim, eu sou da turma do contra.
Acho que o Criador está orgulhoso só esperando para ver até onde podemos retornar.
Enfim, novembro sempre me deixa otimista. Sempre.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sim.

Você é a resposta para a pergunta que me faz.
De todas as certezas, que jamais pude encontrar, você é o sim.
Teus braços e abraços me livram do cansaço,
tua pele aquecida esquenta minha alma fria.
Juntos somos a fé que me faz falta.

De risos e planos;
de laços e tratos;
de amor;
...é assim nosso caso.

Você é a resposta que procurei desde o meu primeiro não.
Meu amigo, meu abrigo, meu enfeite, meu sal, meu alimento.
Você é o meu tempero e minha calma.
Somos o sim. O exato. O completo. O inteiro.
Sozinhos seriamos apenas a metade de tudo que queremos.

Sim. Você é a resposta para as perguntas que já fiz.
E sim é a resposta para a pergunta que me faz.
Simplesmente, sim.




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Quem sou eu, todos os dias?

Este blog é meu.
Eu sou Eliana Klas.
Mas posso não ser. Posso ser qualquer um que passe diante dos meus olhos. Ou quem eu jamais tenha visto.

É esta a idéia original do blog: escrever aqui para tirar aquele monte de caderninhos amontoados ao lado de minha cama.
Fugir do olhar critico, fugir do olhar que dúvida, fugir do olhar analista.
Escrever para voar, escrever para ser ou para esquecer quem sou.

Ultimamente não consigo dar rumo aos meus personagens...
Todos eles parecem flutuando sobre o telhado de minha casa, como pipas que não querem baixar.
Todos os outros eus, aqueles que vejo na rua, que passam lá fora, os que perdi pela vida e os que ainda vou encontrar...todos eles se recusam a vir cear comigo.
Ultimamente só eu mesma sento-me a mesa ...
E foi ceando comigo mesma que resolvi escrever, hoje, por puro prazer.

A experiência do Aspirinas e Urubus foi muito didática, mas não tenho dúvida de que não foi naquele período que escrevi meus melhores textos...meus melhores textos eu escrevi para ninguém ler, vomitei em um chão que não incomodava ninguém...
Apaixonei-me em textos de um amor que não precisava existir para fazer-me delirar.
E é dos meus delírios, em meus delírios, que tiro a melhor poesia.

Minha poesia não tem rima, são versos perdidos de um poeta sem musa...mas é isto que faz dela, minha.
Minha poesia é minha, meu conto é meu, a cronica que escrevo me pertence.
Eu empresto tudo a quem lê.
Não vendo.
Não dou.
Só empresto. Para que continue sendo de meu domínio...
Faço o que quero com aquilo que escrevo, posso até jogar tudo fora...ou posso usar para tocar você.


Então, eis que estou entregue a este eu, novamente.
Este eu, que não sou eu, que é o outro em mim.
Este eu que não posso calar, este eu que é artista, musico, cantor, poeta, que é devasso, perdido, e pode ser também você, meu melhor amigo.
Este eu, que não sou eu, mas ainda assim é o de mais profundo que há em mim...é deste eu que quero falar.
Todos os dias.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

DORCELINO

DORCELINO

Acredito profundamente no "balé" do corpo com a alma.
Preciso encontrar a sintonia entre o profundo abismo de meu ser, e a força do meu corpo.
Sei que posso. Sei que vou conseguir.
Só não sei, ainda, quanto isto irá custar-me. Mas não importa...Ainda que doa, lá no fundo de mim, está a cura que preciso...
Enquanto isto escrevo...
o texto abaixo, "DORCELINO", foi escrito com dores, quase um parto.
Fruto de mais uma de minhas madrugadas...Dorcelino é um personagem que gosto muito e quem passar por aqui verá eu falando dele mais vezes.
Enfim...um pouco de mim, todos os dias...

DORCELINO


Dorcelino estava indo embora.
Ele não sabia para onde, mas precisava ir embora.
Ir embora de todos, ir embora de tudo, ir embora pra lugar nenhum.
Você já sentiu isto?
Se sim então você é capaz de entender Dorcelino.
Dorcelino queria sumir de si mesmo e tentar descobrir o lugar que era dele nesta terra. Certamente não era ali.

Ele tinha os pés grossos do cascalho e da terra, tinha a pele curtida do sol nas colheitas dos cafezais, tinha as mãos ásperas e as unhas sujas.
Aos 48 anos Dorcelino não tinha um único dente na boca.
Mas Dorcelino era gente.
Ele sabia que era gente.
Tentaram lhe convencer de que era ‘burro’, de que era bicho, de que não era nada.
Disseram-lhe até que ele era um tal de “custo-fixo”, que ele nem procurou saber o que era, pois sabia que ele era gente, e isto ninguém lhe tirava.
Quando queriam ser bondosos diziam que ele era “exemplo de superação”, mas isto também ele sabia que não era.
Ele não tinha pai nem mãe conhecida, nunca entrara em uma escola nesta vida, mas conhecia todas as letras e números.
Fazia contas como nenhum outro no cafezal, escrevia versos para as noites de viola nos terreiros das fazendas.
De ‘ouvido’ aprendera a tocar.
Mas ele sabia que tudo aquilo não era nada de “superação”.
O nome daquilo era “escolha”.

Ele tinha de escolher entre despertar pena nas pessoas, ou amor.
Ele queria ser amado, era só isto.
Ele só era gente.
Era um tipo de gente para quem o bem-querer vale mais que o tostão.
Mas agora ele descobriu que ninguém o via como gente.
Era tudo mentira, discurso de gente que acha bonito ser abolicionista, ou democrático, ou ‘do povo’.

Quando Dorcelino avisou que ia embora, fez-se alarido em toda a casa.
Seus patrões, gente que ele servia fielmente como um cachorro, não entenderam nada.
Sua mulher entendeu menos ainda.
Mas agora era hora de ir embora.
Ia abandonar aquele quarto limpinho da casa grande, abandonar seu lugar perto dos seus “donos”.
Sim, ele pensou que era sua “família”, mas isto também era mentira.
Aquela conversa de “Dorcelino é como que da família”, tudo mentira.

Doía naquela alma velha saber que não valia nada.
Seu afeto era visto como interesse.
Amava aquela gente, e os amava de graça.
Ali era sua casa.
Admirava aquela gente.
Sorria para eles pois achava que eram gente como ele.
Mas não eram. Eram feito de uma outra matéria, uma matéria que Dorcelino abominou no dia que se deu conta que existia.
Descobriu que eram feitos de valores falsos, eram feitos das diversas faces da hipocricia libertadora que é bonita no discurso, mas que na pratica era puro nojo de gente como Dorcelino, pobre, preto e iletrado.

Dorcelino fora tratado como bicho querido por muito tempo.
Bicho bem tratado, afagado, alimentado, uma poção diária de ração boa, água limpa e até com sucos algumas vezes.
Mar Dorcelino gostava deles não por nada que eles pudessem lhe dar.
Gostava deles por que era gente e acreditava que eles também fossem.

Dorcelino agora precisava ir embora.
Seu peito ardia de uma dor profunda, a pior que um ser pode ter: a descrença.
Uma pessoa pode perder tudo nesta vida, mas o dia mais infeliz da vida de Dorcelino quem trouxe não foi a fome, nem a miséria, nem a falta de saúde, nem o desamor.
O dia mais infeliz da vida de Dorcelino foi o dia que perdeu suas crenças.
A descrença em tudo lhe socou o estomago com fúria.
Não havia nada em lugar nenhum no qual ele ainda acreditasse
Dorcelino agora não acreditava mais em si próprio.
Todo o esforço de sua vida fora em vão, e agora nem em si ele acreditava mais.
Mas a dor maior é que agora ele não acreditava nos seus semelhantes e sem acreditar no semelhante ele não podia mais crer em Deus.

Dorcelino precisava descobrir o que era a vida afinal.
A vida não podia ser seus sapatos.
Ele sabia que um sapato bonito garantia que ele fosse atendido mais rápido na mercearia, mas a vida não podia ser suas roupas.
A vida não podia ser seus cabelos. Ele sabia que se sua mulher tivesse cabelos bonitos e cheirosos ela era melhor tratada.
Mas a vida de sua mulher não podia ser seus cabelos.

Dorcelino já estava farto de ouvir falar discursos sobre a importância do “SER”, mas no dia seguinte ele via estas mesmas pessoas com o “TER” ardendo nos olhos, lustrando seus sapatos bonitos, olhando para os sapatos como se fossem espelhos.
As mesmas pessoas que falavam bonito sobre o direito de liberdade e igualdade e na verdade olhavam pra Dorcelino com desprezo.
Achavam que a bondosa servidão dele era pobreza de espírito. Achavam que ele era um “pucha-saco” interesseiro que só queria dormir na Casa Grande.
E Dorcelino não era nada disto.
Ele só era gente.
Gente pobre, gente simples, gente que não escolheu de quem nascer.
Mas era gente.
Ele precisava ir embora antes que lhe convencessem do contrário.
Antes que lhe convencessem que era um medíocre e sujo pedaço de pano velho.
Dorcelino apertou contra o peito a carta que seu senhor lhe dera.
Fez que não viu a fingida preocupação quando lhe perguntaram para onde ia.

_ Eu? Eu só vou embora “Seu Dotô”. Carece saber o meu paradeiro não.
Faz de conta que morri. Faz de conta que eu nem existi “Seu Doto”.
Mas não esquece de tomar seus remédios “seu doto”...
...e antes que Dorcelino tivesse terminado a frase o seu senhor já havia lhe dado as costas e entrado na Casa Grande.
E Dorcelino se foi, como se nunca tivesse existido.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Minha prece

Que o meu silêncio fale cada vez mais.
Que o meu ontem possa definitivamente se tornar ontem.
Que o hoje não seja mais um doloroso reflexo do passado, mas sim a continuação que se faz necessária.
Sigo.Não por escolha.
Sigo por exigência. Sigo por nunca ter me dado outra opção.
Não desistir pode ser uma opção.
Para mim é a única estrada a ser trilhada.
Se curvar, sim.
Parar nunca.
Não sei ser de outro jeito.

Penso que o fracasso nada mais é que a desistência.
Penso que a vitória não é a quantia de bens que adquiriu ou de pessoas que agregou ao seu redor.

Ser vitorioso é ser capaz de lapidar-se, até que sua alma seja algo melhor do que quando chegou aqui...
Se não creres na alma, então tudo perde o sentido.
Em minha fé, tola, não há prazeres momentâneos que justifiquem a vida, que se torna um fardo a ser arrastado neste festival de bens e amores que vão e que vão.
As riquezas conquistadas, e o amor alcançado são só passos...passos.

Sem a certeza da comunhão da alma com o Divino, tudo se torna caminhar sem destino.
E o Divino é tão pessoal. Tão infinitamente Vasto e Profundo, para estar em um só lugar, em uma só crença.

Enfim.... Mesmo quando não creio, continuo crendo.
Crendo que o hoje é a lenta formação de uma alma em construção.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ficar 'só no discurso' pode ser uma opção...ou não?

Complicado.
Dilemas da vida.
Não calar-se, gera problemas.
Calar-se, gera gastrite.

Todos sabem que sou apartidária.
Por escolha.
Ou por alergia.
E não é a alergia, desculpem-me, burra, de certa parte da população, que alega “detestar” política, e prefere abster-se de votar, ou pior, desconhecer os candidatos em quem vota.
Não.
Minha alergia tem nome e sobrenome, é uma alergia “culta” e motivada.
Optar por não politizar-me foi algo que fiz, com muita dificuldade, ainda no ensino (hoje chamado) médio.
Por motivos familiares e particulares.

Tentar fazer parte da mudança social pode estar diretamente ligado a não acompanhar as mudanças que acontecem dentro de sua própria casa.
Desde muito cedo decidi que seria partidária de uma causa ou criaria um filho.
Engravidei muito jovem, aí não teve jeito: A natureza resolveu por mim.
Mesmo assim esta coisa de questionar, de não ‘ir na onda’ da mídia, te ter opinião e não ficar em cima do muro quando sua opinião diverge da maioria, e principalmente, diverge do divulgado pela imprenssa, gera problemas.
Quando eu menos via já era líder de gincana, depois de sala e por fim juvenil.
Daí para entrar nos problemas do bairro é um pulo.
Daí para perceber a necessidade que todos os segmentos têm de seus “mártires” é outro pulo.
Tenho dezenas de centenas de motivos para não seguir os exemplos que vi em casa.
Ou melhor, exemplos que fizeram com que eu não tivesse um lar.
Meu pai sempre foi militante de diversas causas.
Só esqueceu a causa própria.
Hoje aos 70 e tantos anos sei que se arrependeu.
Em minha opinião a primeira causa que deve ser lembrada é a causa familiar.
Não estou falando de interesses mesquinhos que levam pessoas a ‘mamarem’ nas tetas do governo.
Estou falando de amar a si próprio para só depois ser capaz de “amar aos outros como a si mesmo”.

Enfim. Por estas e outras ando roendo uma corda ultimamente.
Com o “... eu todos os dias” e os meus gritos, acabo por atrair olhares de colegas militantes.
Quem me conhece quase me esmurra ao dizer:
- Mas você não pode ficar só no discurso! Diz o ex-colega do colégio, atual militante de meu bairro, filiado e candidato na ultima eleição a Deputado Estadual.
- E se ficar só no discurso for uma opção, pensada, analisada e escolhida? E se ficar só no discurso for minha escolha?Respondo, ‘na lata’.

O amigo, de um partido no qual deito meu olhar nas ultimas eleições, responde, também na ‘lata’ sem dó:
- O problema Klas, é que ficar só no discurso não combina com você.
Arghhhh”
Que ódio que eu tenho destes colegas do ensino médio!
Grunf!
Isto lá é jeito de cutucar a onça? Com vara curta?
Cutucou, e fez-me ficar ruminando o fim de semana inteirinho...
Afinal, haverá um meio termo?
Manifestar-se é um passo, mas deve ser apenas o primeiro de outros que inevitavelmente terei de dar?
Não sei, não sei...”

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O que temos para hoje?

Escrever é uma coisa complicada.
Mas já que eu fiz um pacto, comigo mesma, preciso escrever.
O complicado não é escrever, o difícil é perceber a fina linha que divide o que somos do que não queremos ser.
A linha que separa quem escreve, de quem lê.
A linha que separa o pensador, do vendedor de idéias.
O pensador, pensa, agonia, grita, geme, vomita.
O vendedor de idéias, envolve, enfeita, justifica, formata, molda e emoldura seu próprio vômito.
Não deixa de ser vomito, mas vem disfarçado, e disfarces sempre me incomodam.

Esta semana recebi a redenção: querendo tornar-me um pouco culta resolvi ler Clarice Lispector, e escolhi logo um apanhado de crônicas de quando ela escrevia para um jornal.
Não pode haver nada mais cru do que o que se lê em “Aprendendo a Viver”.
Claro que “ela” já era “ela”, com um nome projetado na literatura, quando escreveu os textos que compõem este livro, mas o seu gemido me é tão intimo que, leiga que era, sobre Clarice, fiquei assim meio sem entender a proporção de seu nome.
Fiquei meio ressabiada e perguntando-me por que diabos falam tanto de Lispector se nada de mais eu lia naquelas crônicas, que de crônicas tinha muito pouco.
Os pensamentos dela eram para mim tão meus, que eu não via nada de novo ali.
Fazia-me lembrar um diário...mas ali, página após página eu pude ver a alma de uma mulher que busca...busca, busca, busca.
Enquanto escreve ela não quer alcançar o outro, ela quer se alcançar... e assim, sem querer ela emociona e toca a quem lê.
Mas sem nenhuma intenção além de achar o mais fundo dela mesma em tudo que a cerca.

Às vezes são tantas idéias, tantas histórias que se formam dentro de nós, mas ao pintá-las no papel a vontade se acanha, a história se perde.
Hoje eu queria falar de tantas coisas, mas nem uma delas parece preencher aquilo que deveria caber neste espaço.
Hoje, talvez, tudo o que eu quero é um Sarau com amigos.
Esta noite perdi o sono pensando neste Sarau.
Imaginei como ele seria, imaginei amigos queridos, reunidos na sala de minha casa.
Eu tiraria todos os móveis da sala, e colocaria apenas um fofo tapete com muitas almofadas.
Todos entrariam sem sapatos, e sentaríamos ao som de uma musica tocada ali mesmo, por algum musico presente.
Mas seria só a canção, sem letra. Gosto da idéia de que seria o som de uma flauta.
Até sei que amiga a estaria tocando.
Quem sabe a minha filha já estaria dedilhando seu violão e se juntaria, uma vez, ao grupo de meus amigos.

Ah, haveria na varanda uma longa mesa com comidinhas que seriam trazidas pelos amigos. Cada um traria sua especialidade, e nada seria um fardo. Tudo seria com carinho, com vontade.
Eu estenderia o convite aos meus irmãos, mas pediria pelo “amor de Deus” para deixarem meus sobrinhos à vontade para não virem. Esta coisa de obrigar jovens a ir nos lugares é horrível.
Jovem tem seus compromissos, tem seus afazeres. Temos de respeitar o espaço que eles buscar conquistar.
Acho que não haveria cerveja.
Devo dizer que uma amiga me ensinou o prazer da boa cerveja, e desde então a tomo com prazer, saboreando e tateando-lhe com a língua.
Com moderação, sempre, pois o segredo dos santos é equilibrar a bandeja do bem e do mal.
Perdoem-me os adoradores da cerveja, mas eu tirei a cervejinha do meu sarau. Talvez seja por achar que falta romantismo as pessoas quando a bebem.
Gosto dela, mas ando cercada de gente que não a bebe com o devido respeito.
Bebe qualquer uma, em qualquer temperatura, por qualquer motivo.
A cerveja merece mais respeito, néctar amarelo que é...Sei lá, ando ofendida com o que vejo alguns fazerem dela. Então por respeito, não a convidei pro Sarau.
Quero introduzir a cerveja aos poucos, em meus saraus, até que todos entendam que beber é coisa sagrada. Há que se respeitar os limites.
Eu faria uma mistura de chás, cafés, chocolates quentes, e teria bebidinhas como licores e a velha e boa cachacinha pros cabras valentes e para as marias bonitas. Alias teria vários tipos de cachacinhas pra degustar.

Mas estranhamente, neste Sarau, o que embriagaria seriam os versos.
Todos leriam seus poemas favoritos, recitariam as letras de suas canções favoritas, a meia voz, ali, no meio da sala...
Haveria também alguns atores no bando, também já sei quais seriam, e estes nos encantariam com “a arte de imitar seres”.
Teria um grupo, hospedado em minha casa, que viria do Nordeste de meu Brasil, trazendo na bagagem seus próprios versos, para serem lidos ao grupo reunido em minha casa.
Haveria um senhor, que atende pelo nome de meu pai, e ele, bem, ele me deixaria aflita. até que de súbito ele me surpreenderia.. Ele leria versos, seus e de outros, mas se deixaria espatifar em uma almofada, rindo e tomando cachacinha sem preocupar-se demais em mudar o mundo.
Uma vez na vida ele não se levaria tão a sério e se daria o direito de relaxar um pouco. Ele reaprenderia a saber menos, e deixaria os outros pensarem que ele sabe pouco.
...Neste Sarau haveria algumas ausências.
Minha mãe não estaria lá. Não sei o motivo mas ela saiu. Não quis ficar. Fiquei triste com ela, , mas o que fazer não é? Os sarais são assim mesmo...sempre tem alguma ausência importante.
Meus irmãos viriam. Alguns vizinhos que são quase família.
Ah, tem uma família, que é inteira desordeira, mas que amo com tudo que tenho...eles estariam todos lá. Pulariam o muro que separa nossos quintais e viriam...trariam versos tímidos em papéis amassados, teriam vergonha e uns pediriam aos outros para lerem o que trouxeram...achariam estranho o ritual de tirar os sapatos e de não ter cerveja...ma viriam por me amarem.
...a noite correria mansa, com medo de acabar logo e matar o encanto do meu sarau.
Mas o sol viria e ainda nos encontraria ali...perdidos e embriagados nos versos e nas letras que alimentam minha alma.

...pois é... é isto que tenho para hoje,...um Sarau.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O Rei nos Invejará.

Quando a lua chegar, modesta,
Imploro que tu venha e alise todo o meu corpo,
Despreza a falta do sol, deixa a noite nos acariciar.
Toca meu rosto,
meus cabelos,
minha pele.
Arrasta-se sobre mim com calma.
Esfrega teu rosto em meu pescoço,
perca teus olhos no meu corpo nu.
Sussurras baixinho,
palavras que conduzem por caminhos de perdição.
O silêncio e a noite irão devorar minha pele,
tua pele na minha irá esconder-se.

Deixa meus carinhos te enfeitiçar,
Implora por minha língua,
deixa que ela te leve pelo chão prateado.
Deixa minha boca e minha sede te bebericar,
deixa meu desespero achar pouso em ti.
Quando perceberes meu corpo molhado,
seca-me, tateando-me com sua língua.
Vira-me do avesso, me prende em tua cela, carrega-me por onde quiseres.

Quando estiveres bem cansado de amar-me,
cansa-te mais, amando-me de novo.
Ama-me até que tomemos enfado um do outro, até que largados e vencidos possamos dormir.
Deixa todo seu cansaço sobre mim, amansa teus músculos pousando no meu corpo, deixa tua boca dormir em meu seio.

Quando o dia chegar há de nos encontrar vencidos, derrotados, devorados por este amor.
O sol irá rir-se e com seu fogo nos acordará.
A manhã irá nos cobrir com seu manto,
nossa nudez não será vergonhosa.
O astro, que nos rouba a noite,
encantado com nosso furor; calor maior que o dele;
rápido, nos devolverá a penumbra.

No meio da noite, por trás da lua, o sol virá para nos espiar.
Na relva, luz maior que a do Sol, enfim ele se curvará.
Desde então o Rei, cobrirá o rosto, todas as vezes que meu corpo pedir o teu.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A culpa é dos coveiros, Sr. Kassab???

Com a pausa no blog Aspirinas & Urubus, fiz um compromisso interno de publicar semanalmente, aqui no "Eu...todos os dias."
Serão textos diversos, geralmente, frutos de minha insônia.
O de hoje é fruto da insonia e da gastrite causada quando eu apenas tento assistir o jornal enquanto janto...
Tem coisas que não 'desce', e ai...Lá vai:

"Agora a culpa é dos 'coveiros', Sr. Kassab?"

Agora a culpa é dos coveiros, Sr. Kassab?

Gente, quem me conhece sabe o quanto me abstenho, de comentar a respeito de política, exatamente por não julgar-me uma pessoa politizada, para entrar em debates.

Mas leiam este texto, cientes de que quem o escreve, sou eu, uma pobre alma revoltada com o cinismo de quem está no governo de sua cidade.
Pensem que Não sou filiada a nenhum dos partidos políticos, e também não sou sindicalizada.
Apenas tenho olhos, ouvidos, e penso.
Sendo assim tenho direito a “livre manifestação do pensamento!”

Sou munícipe e necessito de absolutamente TODOS os serviços públicos prestados por nossa municipalidade.
Inclusive sepultar meus mortos. Ou, eu mesma, caso “caia dura” de raiva, diante do que tenho visto por parte de nossos governantes, necessito, pessoalmente’, do serviço que hora está em greve.

Estamos em meio a GREVE DO SERVIÇO FUNERÁRIO, ou seja, os coveiros cruzaram os braços, depois de exaustivamente tentarem ser ouvidos por uma municipalidade hipócrita.

Não posso e não vou debater o quanto o serviço é absolutamente necessário, e o quanto de horrível deve ser, depender de um serviço cuja existência é básica, e ao ver seu ente amado partir, perceber que quem deveria sepultá-lo, está de greve.
Não posso medir o desespero destas famílias.
Mas posso medir o cinismo de uma municipalidade que se aproveita deste desespero para JOGAR A OPINIÃO PUBLICA CONTRA OS GREVISTA, QUANDO NA VERDADE, O SENHOR PREFEITO, DEVERIA É EXPLICAR, COMO DEIXOU A SITUAÇÃO CHEGAR A ESTE PONTO.Sou obrigada a ver na Rede Globo nosso Exmo. Prefeito, Sr. Gilberto Kassab, chamando a greve de imoral, quando na verdade Imoral é o Município ao permitir que os servidores tivessem de chegar a este ponto pare serem ouvidos!

Perguntem, amigos, quanto ganha um “coveiro”!!!
Perguntem qual é a porcentagem de aumento que eles recebem anualmente!
E agora perguntem, ao nosso representante municipal, digníssimo prefeito, qual é a margem do aumento do salário dele e verifiquem vocês mesmos quem é o Imoral da História desta greve!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

MINHA AMADA BRUXA

Texto dedicado a minha filha Alice Klas e aos meus sobrinhos: Valdir Carvalho de Souza, Vander Carvalho de Souza e Julio Cezar Klas Oliveira.

Publicado originalmente no blog:
http://aspirinasurubus.blogspot.com/


"Os cronistas desta semana, aqui no A&U, cutucaram minha velha veia politizada, mas eu, mais uma vez, a ignorei.
Não por desmerecê-la.
Exatamente por reconhecer-lhe a força, mas principalmente, por ter consciência de que palavras sem ação são palavras mortas.
Para não ceder à tentação e falar de política, revi o caminho de meus amigos cronistas e percebi que já era hora de contar sobre a figura medonha de minha rua, em minha infância.
As minhas amigas aspirinas, contaram aqui, histórias de seus loucos e de seus medos de infância.


Eu também preciso contar a minha.
É difícil eu conseguir, ordenar os fatos, os medos e os cheiros, trago poucas lembranças dela.
Ou, talvez, o velho medo disfarçado, me impeça de contar os detalhes.
De tanto que o medo dela me consumiu, decidi afogá-la, e torço até hoje para que ninguém encontre seu corpo.
Vou tentar ordenar os pensamentos com as lembranças que trago dela.


Lembro dela brava gritando, muito, pois iam destruir o seu jardim.
Gritava, e punha medo em quem se aproximasse.
Lembro que, quando seu esposo partiu, os filhos sumiram junto,
e ela sumiu-se de si mesma.
Ou já teria sumido antes, e eles não se aperceberam?
A mulher furiosa, deixada lá, já não era ela, ninguém notou.
Pobre homem,
Pobres filhos,
como podiam saber?
Nem ela, a própria jovem louca, notou, quando a loucura tomou seu corpo.

O fato é, que o assunto correu toda vizinhança:
Aquela bela jovem, com 4 filhos, enlouquecera!
Ainda hoje, se perguntarem, muitos conhecem a história dela.

Lembro de seus olhos perdidos, que já não reconheciam-me mais.
Lembro de vê-la vagando, pelas ruas, com sua foto vestida de noiva.
Lembro de encontrá-la pegando pedrinhas que amontoava no fundo se seu quintal.
Lembro de seus vestidos manchados de sangue, de um fluxo que não a incomodava.
Lembro do seu mau cheiro e do rancor de seus olhos.
Rancor? Não.
Hoje sei que era medo.

Lembro de silêncio e escuro, de uma grande mesa de madeira, que sumiu e nem sei qual foi seu fim.
Lembro do gosto do feijão recém temperado, de caldo ralo, única e ultima refeição, que a lembro ter-me preparado.
Até hoje gosto de feijão de caldo ralo.
Era madrugada, eu fadigada e faminta dormi esperando a janta.
Imagino que nesta época eu tinha uns quatro, cinco anos.

Lembro, que ela começou, a esquecer-me na escola.
Lembro, que sua ira, jamais foi cuidada.
Lembro, que ela era temida, desprezada e zombada, mas jamais amada.
Logo ela se tornaria a bruxa de meus horrores infantis.
Eu amei aquela bruxa mais do que amei qualquer outra mulher antes de minha filha.
Ela era minha mãe.

Nunca me fez mal.
Nunca me fez nada.
Nunca fez mal a ninguém além de si própria.
Todo o rancor que nos despejava eram gritos de socorro que ninguém ouviu.

Ninguém podia ouvir, afinal, quem poderia adivinhar-lhe a loucura, lenta, consumindo seus nervos?
Seus olhos perdidos, suas roupas sujas, seus cabelos emaranhados, seu rosto fechado.
Lembro.
Bruxa.
Por onde ela passava as crianças tinham medo dela.
E ela?Ela jamais tocou em uma única criança.
Se quiserem saber, ela amava as crianças, os bichos e as plantas.

Bruxa.
Louca.
Velha bruxa louca.
Aos trinta e cinco anos ela era velha.
Esta é a idade que tenho hoje.

De todas as batalhas que já travei,
Minha maior vitória é, nunca ter negado que eu era filha da bruxa.
Nunca, em toda a minha vida, tive vergonha dela.
Nunca.
Esta é minha marca e meu orgulho.
Por ela me fiz bruxa também.
Esta é a minha herança, meu legado.
Minha maldição?
Não!
Esta é a minha honra!

Muito cedo, aprendi o que era ter caráter.
Muito cedo, aprendi o significado da palavra honra.
Não importa que sua honra seja suja, seja fétida, seja louca.
Ela é a sua honra, e ninguém a pode tirar.
Não importa que não enxerguem tua honra, que a chamem de desonra.
Importa que você enxergue honra, onde só há dor.
Honra é vestir de princesa uma mãe que chamam de bruxa.
Muito cedo aprendi a me curvar diante da dor,
E foi me curvando que aprendi a rezar.
Honra é aprender a rezar só para pedir por uma bruxa, por não ser capaz de esquecer que ela é a sua mãe.

A bruxa de minha infância atormentou o pesadelo de varias crianças.
Só eu nunca pude fugir dela.
Deixá-la seria o mesmo que abandonar minha vida.

Hoje minha alegria é saber que ela também deve ter sido amada, por outras crianças, como as minhas amigas aspirinas, amaram os loucos, bêbados e mendigos, de suas infâncias.
Mesmo que suas lembranças possam não parecer, elas são lembranças de amor.

E foi o amor que vi nos textos das aspirinas que me permitiu buscar no fundo de minhas lembranças a mais amada bruxa de minha infância.
A primeira, de muitas que vieram depois.
Por minha mãezinha louca, me fiz bruxa, pois aprendi que as bruxas não existem, só existem anjos.
E assim, disfarçada de bruxa, minto, sabendo que mentindo alivio a dor.

Aprendi que mentindo ser bruxa, visto de luz, a dor que minha amada bruxa um dia me deixou...
Aprendi que contando histórias, disfarço de fantasia, dores que os loucos carregam no peito.

Minha mãe ensinou-me, que as bruxas não existem, elas são anjos, e nos faz lembrar que ao avistarmos um mendigo, um bêbado ou um louco, antes de termos pena deles, devemos ter pena de nós mesmos, em nossas ignorâncias...


Já foi dito que, os loucos não errarão o caminho dos céus.
Portanto minha amada bruxa, tem asas de anjo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Sem ele.

Naquela tarde ela percebeu que tinha de ir embora.
Ela havia se perdido dele e nem sabia como acontecera.
Sem ele, ela estava perdida..
Onde ele estaria?
Nunca mais voltara para fazer prosa com suas tardes.

Algumas vezes eles se sentavam diante do mar, sonhavam juntos enquanto viam o por do sol.
Nestas tardes eles riam e faziam confissões.
Mentiam poesia um para o outro, se faziam de amantes.
Ela fechava os olhos, mentia suas vontades, se fazia de forte, negava o desejo.
Mas agora ele não vinha...o silêncio dele esvaziava os dias dela, lhe roubava o poema.
Sem ele ela perdeu a rima, a prosa e o conto.
Sem ele, ela achou melhor ficar quietinha,enroscada em um canto da sala.
Foi ali, no canto da sala que ela percebeu que naquele inverno ele não havia vindo uma única tarde.
Sem ele vir, ela decidiu partir.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Bruxa e o Anjo.

Texto postado originalmente no sitio:http://aspirinasurubus.blogspot.com/search/label/Klas
Dia 22/07/11.

Ela penteou seus longos cabelos negros, já sentindo saudades daqueles fios que eram seu manto protetor.
Para onde ia não podia levá-los.
No espelho os olhos, redondos e negros, fitavam-na com receio.
Seus olhos de anjo a protegiam e, no fundo deles, se via a certeza da dor em vê-la partir.
Ângelo também, tão lindo e perfeito, não poderia acompanhá-la.
Loueiny ou Lourdes, como sua mãe preferia, estava com medo, mas precisava ir.
Chegara o tempo de cumprir sua missão.

Deveria vestir-se de cinzas, rasgar suas vestes nobres, triturar suas unhas perfeitas. Cortar os lindos cabelos.
Para onde ia a beleza era vista como falha de caráter, sobretudo a beleza feminina.
Ou pior, algumas vezes a beleza corrompia o caráter e fazia da mulher mero objeto de luxo.
Sua pele lustrosa despertaria pensamentos dos quais ela seria posteriormente culpada.
Melhor cortar os cabelos e esconder os olhos atrás daquelas grossas lentes recém inventadas.
Assim, talvez, teria paz.
Sua beleza que sempre seduzia e lhe dava poder para levantar ou derrubar, não só um homem, mas também um Reino; nunca seria vista como força.
Jamais conseguiriam ver a sábia bondade por trás de sua beleza tida como maligna.
Sua assombrosa sabedoria conquistada em anos e anos de contemplação à Mãe Natureza e afiada com ouvidos atentos para a voz do que não se vê, seria tida como “macumbaria”, blasfêmia ou petulância.
Pior: sua sabedoria seria vista como Pecado.
Melhor calar.
De onde ela saía, as mulheres deviam aprender a calar.
A mulher não podia pensar e muito menos usurpar o lugar que os homens defendiam há séculos: o de Senhores da Criação e preferidos do Criador.
Mulheres que se colocassem como imagem e semelhança do mesmo Deus seriam jogadas na fogueira, seriam malditas, seria banidas.
Mulher só podia ser de dois tipos:

­_ as que conheciam seu próprio poder e escondiam seu conhecimento, ou ainda que assustadoramente belas disfarçavam-se de messalinas e manipulavam os Reis, mas, com isto, eram castigadas à solidão.
­_ as que negavam sua própria força, escondiam-se de si mesma e tentavam viver em paz com seus homens e seus filhos.

De onde Lourdes vinha toda mulher era bela.
Cada uma com seu tom e sua cor.
Cada qual com sua textura.
Narizes, seios, nádegas de todos os tipos e formatos.
Cabelos crespos, lisos, ondulados, todos.
O Belo estava no imperfeito.
Cada qual com seu segredo.
Todas fascinantes.
Mas aprenderam desde cedo o preço de serem mulheres e, amordaçadas, foram encurraladas em um padrão do que é belo.
E o belo mudava de tempos em tempos, depreciando as que não se encaixavam.

Lourdes olhou todas as imagens, escolheu o tipo mais pacato que pode e saiu.
Sua missão era penosa.
Sabia, por antecipação, que venceria.
Mas sabia também que para vencer teria de carregar no corpo todas as dores e misérias de sua luta.
Sabia que se sentiria só.
Temia que sozinha não fosse possível conseguir.
Mas era esta a condição para sua vitória: ela teria de ter coragem de partir primeiro.
Sozinha.
Depois, Ângelo a seguiria.

O grande problema é que, talvez, nunca mais se encontrariam.
Ele jurou que não a deixaria.
Ela jurou que não o esqueceria.
Beijaram-se com amor, encantados e apaixonados que eram um pelo outro.
Tocaram-se com fome e sede um do outro.
Separaram-se como que cada um arrancando de si seu próprio membro.

A grande porta se fechou atrás da jovem e muito sofrida mulher.
Arrastou todas as suas dores pela estrada, sozinha e com medo.

De longe, da janela da grande casa branca, Ângelo chorava.
O amor de sua vida estava no corpo daquela mulher.
Bruxa? Louca?
Não.
Sua fada, sua mulher, seu grande amor.
Ele sabia que ela carregava no peito a espada que matou, antes dela, dezenas de profetas.
Ele sabia que aquela mulher, a mulher de sua vida, era uma feiticeira.
Sabia que ela morreria mil vezes em mil fogueiras diferentes sem nunca desistir de cumprir sua missão.
E ele? Ele era um anjo, calmo e manso, que só teria nesta vida o legado de amá-la, protegê-la e perdê-la dezena de centenas de vidas.
Ângelo Chorou.
E a amou ainda mais.

Dona Ela.

Texto postado originalmente no Sítio:http://aspirinasurubus.blogspot.com/2011/07/dona-ela.html
no dia 13/07/2011


Arrasta-me com teus cabelos.
Toca toda minha pele.
Deixa-me ver-te entrando em meus aposentos, linda e nua.
Passa sua boca fria em minha nuca, sussurrando em meus ouvidos o caminho para o fim, que sei ser só o começo.

Tua pele alva, teu vestido prata aos teus pés.
Seu rosto bonito e doce, sua mão com cheiro de flor.
Ria-te do meu medo, ria-te do medo de todos nós, enrosca tua cabeleira preta e cavalga por todo o redor de mim.

Conta-me teus segredos vitais, mente uma vez mais, e diz que não é agora o fim.
Cobre teu corpo frio com o vestido outrora abandonado ao chão,
Prende teus cabelos com fitas, veste uma sandália branca.
Ri aquele teu riso fino, pinta as unhas de vermelho claro, quase rosa.

Põe teu rosto perto do meu, derrama seu hálito doce sobre mim.
Faça-me ameaças, conte-me que não vou voltar, conte-me que não posso escolher a hora.
Conta-me que vens quando quer e fazes do jeito que bem entendes.

Não é por acaso que tu és mulher, não é por acaso que teu gênero te faz fêmea.
Tu és a Dona temida por todos os mortais, tu és a venerada dos que percebem em ti a porta para o absoluto, tu és a mais abusada das visitações.

Tu te vestes de prata em meus sonhos, tu és linda, tu és minha conselheira.
Pensando em te encontrar bela, me conservo viva, pensando em te encontrar pronta, me conservo firme, pensando em ser digna de ti não desisto nunca.

Amo-te e não nego meu amor.
Causa aborrecimento esta declaração, bem sei.
Mas não te nego nunca, pois sei que será tu a única que não se negará a mim, jamais.
Linda.
Digo-te como já disseram os poetas antes de mim: “ Vem, mas demore a chegar, eu te detesto e amo...”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Carta aberta às Aspirinas e Urubús.

Meu amigo urubuzinho, minhas ASS:

Ao Urubú Mor:

Jotta, apesar de nossa diferença de idade aponte eu como a mais velha, sinto em você um cara que me aponta o "norte" que me dá a direção em muitas coisas na vida.

Já questionei teu jeito meio "azedo" , mas é justamente esta sua capacidade de não ser um "otimista" cego que fez de você uma pessoa na qual posso confiar.

Saber que você não se furta a critica, mesmo quando aponta defeitos, me ajuda a continuar confiando em você, embora você tenha o don de me irritar.(rs)

Sinto muita falta de nossos papos on-line, pois alí era"pau, pau, pedra, pedra", eu conseguia na hora da emoção extrair sua opinião e expor a minha.
Cresci muito em nossos papos, no sentido de me aperfeiçõar em algo que fazia sem compromisso: escrever.

Dia destes, no seu último e-mail fiquei com a sensação de que eu naõ havia entendido direito o que você havia escrito.
Lí e relí seu e-mail várias vezes, e tentava entender exatamente o que buscava nos passar e que tipo de resposta esperava de mim.
Eu fui franca, expus minha frustração em ver findar um projeto no qual sinto que não me dediquei simplesmente por não poder.

Sei que você não pode dimensionar o que acontece por aqui,mas acredite, não pude.

Hoje vim pelo caminho pensando no seu e-mail.

Acho que quero escrever algo melhor.

Quero escrever textos que tirem o que há de melhor de dentro das pessoas.

Existem textos qeu escrevo, que são feios, são ruins não no sentido literário, mas no sentido do tipo de sentimentos que desperta. São "negros" como disse o Davi.
Eu preciso escrevê-los para purgar a minha alma, para libertar meu peito da dor, mas eu não quero mais que eles alcancem as pessoas.

Preciso escrever textos que contaminem as pessoas de maneira positiva.
Por mais que que eu me liberte quando escrevo textos com gosto de lama, por mais que eu precise muito deste tipo de escrita, não é este o tipo de texto que quero escrever.

Enfim, tenho pensado muito em vocês ultimamente.

Me perdõem, de verdade, por cada texto meu que não esteve a altura do nosso blog.
Me perdoem os silêncios quando havia tanto a ser partilhado.

Eu, como cada um de vocês (tenho certeza) tenho travado umas batalhas bem complicadas, e a pior delas é aquela que se trava dentro do próprio peito.
Mas estou vencendo.
Sei que meu sobrenome é abençoado e nada poderá me tirar isto.
Meu nome quer dizer "trigo".
O mesmo trigo dos cabelos do pequeno principe.
O trigo que faz o pão. O pão que partilhado derruba muralhas.

Enfim, sei que há uma unção de vitória sobre nós e nada poderá mudar isto.

Existe a vitória que muda o mundo. E existe a vitória que muda nossa alma e nossa própria história.
A primeira parece ser mais importante. Mas não se enganem.
Ser capaz de construir a própria história é a maior vitória que um ser pode ter.
Só depois disto somos capazes de mudar o mundo.

Um beijão em cada um.

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