quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Valores.

É interessante notar como algumas pessoas possuem valores diferentes dos nossos. Neste caso entenda por nossos os meus.

Para alguns o que realmente importa não é o que está sendo feito, mas o que as pessoas pensam que estamos fazendo.

Eu francamente tenho meus critérios para preservar minha intimidade mas francamente não sou adepta de falsos moralismos.

Penso em passar para minha filha o exato conceito de quem sou, a ideia de que sou uma mulher com sentimentos, assim como ela, que sofro decepções assim como ela, e que o meu valor quem estipula sou eu, assim como ela.

Ao terminar um relacionamento há alguns meses atrás me vi confrontada com isto.
Ouvir conselhos do tipo: Saia com quem quiser, desde que ninguém fique sabendo.
Como assim?
Não consigo acreditar nestes critérios.
Eu ainda carrego a ilusão de que devo partilhar com minha filha, minha história, por mais que não seja a história que eu gostaria de ter escrito.

Nenhuma moça sonha em ser mãe solteira aos 20 anos e divorciada aos 32.
eu não preciso que me contem minha história.
Eu a conheço muito bem pois foi com o rosto erguido que eu a vivi.
Esta é a minha história, história que assumi integralmente e da qual não me envergonho.

Estou disposta a reconstruir minha história e para isto preciso recomeçar.

E recomeçar exige coragem e desprendimento, e mais que isto gera enganos, mas pago o preço dos meus enganos sem jamais ter creditado na conta de outros nenhum deles.
Assumo minhas verdades e meus enganos.
Pago o preço pra ser dona da minha vida e não posso me envergonhar dela.
Não posso mascarar minha história simplesmente por não conseguir entender o motivo pelo qual deva fazer isto.

Minha filha precisa ser capaz de ver em mim alguém além de uma mãe.
Quero que olhe para mim e veja uma mulher em todas minhas virtudes e fraquezas.
O meu valor não pode ser ditado pelas pessoas que passaram por minha vida e principalmente não pode ser ditado pelo que as pessoas pensam sobre isto.

O meu valor como mãe e como mulher precisa estar acima disto.
Eu não posso e não vou viver de aparências.
Já bebi desta água e tenho nojo dela.

Eu sei quem eu sou. E não aceito que me rotulem.
O meu rótulo quem coloca sou eu.
Pago o preço de assumir minha vida e francamente não vejo motivo para fazer diferente.
Valores são valores: cada um tem o seu...
Eu vivo de acordo com os meus. E fim.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

...sem eu saber sequer...

...Só me resta a frase do poeta pra descrever-te em mim:

“Porque já eras meu sem eu saber sequer...”

...sim, é assim que chegaste,
sendo meu sem que eu sequer soubesse...
Porque me olhaste e neste olhar primeiro me elegeu pra ser sua,
Porque seu riso invadiu o meu mundo, tirou as letras do lugar,
Virou-me do avesso, menino travesso.

não pude deixar-te partir...
Ah, bem que tentei recusar, disfarçar, recuar...
mas, como deixar-te ir sem colocar-me inteira em ti?
Como deixar pra depois a vontade do agora e do mais?
Como esconder este riso, que me toma inteira quando me perco no som de sua voz?
E teus olhos que devoram os meus, tua boca que nasceu pra ser minha, e suas mãos que se entrelaçam e fazem parte de mim?
Não, eu não pude deixar pra depois...
Esconder de quem se sua vontade é a minha, se meus planos são os teus, se nosso caminhos se misturam?
Nossos caminhos tem o cheiro de terra molhada, tem cheiro de capim gordura, nossos caminhos são os mesmos,
nossas vontades as mesmas, nossa boca uma só,
nossos sonhos um do outro.

...e assim como dize o poeta, “tu me chegaste sem me dizer que vinhas”...
...agora fiques, faça morada em mim, construa seus castelos junto dos meus, misture tua terra com a minha, tua musica com a minha, tua pele em mim...

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Dia Da Secretária.

Ontem quando sai do trabalho deparei-me com uma moça carregando um lindo buquê de rosas vermelhas... Lindas como se fossem feitas de veludo.

Um capetinha de plantão logo balançou seu tridente aos meus ouvidos dizendo: “Nossa o que faz uma mulher para ganhar um buquê tão lindo?”
Meu anjo, sempre disposto a intervir logo sacudiu sua harpa gritando: “Não, o segredo não é o que a mulher é ou faz. O problema é que você tem estado com os homens errados.”

...E nesta pendenga entre os valores e motivos logo trombo com outra jovem com flores nas mãos, e outra, e mais outra...
Comecei a achar que ai já era desaforo, aquele monte de mulheres recebendo flores...

Ah, salva pela lembrança: Ufa, é dia da secretária! De novo meu anjo arrebentou na sua função de manter em dia minha auto-estima.

...o fato é que cheguei na faculdade com as tais rosas de veludo brilhando nos meus olhos, partilhando o fato com algumas colegas logo colhi diversos comentários sobre o quanto gostamos de um lindo buquê de rosas.
Uma mencionou que seu marido já lhe deu uma orquídea plantada, caríssima, mas tudo que ela queria era um buquê de rosas.
O marido alega que as rosas logo morrem...
Eureca! É isto!
É exatamente isto!
Receber um buquê de rosas significa que o homem é capaz de rasgar dinheiro por você.
Ele gasta em algo que certamente morrerá, etéreo e lindo, talvez como será a paixão, mas o buquê tem algo que faz sentir o homem rendido diante de nós.

Gosto de flores em vasos, mas um homem te esperando com um buquê nas mãos é algo que nos comove talvez por sermos seres etéreos como rosas colhidas.

...o fato é que alcançamos a independência, somos plenas, dinâmicas, múltiplas, versáteis, únicas e absurdamente capazes, mas ainda nos desmontamos diante de um homem carregando um buquê de rosas.

E viva o Dia da Secretária!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Quero a cor dela.

Quero a cor,
A cor que sustenta o batom,
que dá tom a face,
que dá face pros desenhos.

A cor que alimenta o papel,
a cor que enfeita o balão, balão que some no céu.
Não pode mais fazer balão e a cor se esconde pelo chão,
em folhas coloridas jogadas pelo quarto.

Quero a cor que tinge os cabelos,
Quero a cor que pinta as unhas,
Quero a cor que colore a blusa.

Quero a cor do anel de vidro,
aquele das rodas de cantigas,
Quero a cor do pano,
Quero também o pano,
aquele que eu usava pra dormir.

Quero a cor que pisca no semáforo,
e os carros dançam ritmados com ela,
Quero a cor da faixa amarela,
a que era "bordada com o nome dela",
e também a da plataforma de embarque, que não posso ultrapassar.

Quero a cor que diz para onde devo ir,
aquela que traçada no chão me mostra o caminho,
Quero a cor que dá brilho ao sapato,
a cor que combina com o cinto.

Quero
a cor que desce de mim pra lembrar que posso ser mãe
Quero a cor que escorre do bule, tingindo a porcelana branca.
Quero a cor que rabisca o papel,
Quero a cor do véu, o véu que cobre a cabeça da moça.

Quero a cor marrom, marrom do bombom,
Quero o verde,
o azul e o lilás,
quero o branco, e o preto também.

Quero cores, com memórias e histórias,
quero cores,
cores num buque de flores...
Flores vermelhas, amarelas, brancas.

Quero flores com cheiro dela,
...eu a quero cheia de tons, cheiros, sons.
Quero ela,
Eu quero A PRIMAVERA!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Desalinha.

Desalinha meus contornos com a sua língua,
traça meus desejos moldando minha vontade.

Toca com os dedos meus cabelos, meus lábios, minha face...
Desenha seus traços em mim,
me marca com o compasso que desenha suas formas no meu corpo.
Encosta sua pele na minha pele, sua boca em mim,
seu corpo, rígido, aquecendo o meu que já te espera.

Beija-me primeiro lentamente e depois vá sugando a minha boca, o meu rosto, meu pescoço, minhas curvas até ser perder de si mesmo.
Encosta sua cabeça no meu peito, ouve minha respiração ofegante, sente minhas mãos te tocando, te buscando, te encontrando.

Canta baixinho, no meu ouvido, desnorteia meus sentidos, brinca de me fazer sua.
Levanta-me até a altura dos seus olhos, me sente envolvendo o seu corpo, e me tenhas enquanto olha nos meus olhos.
Deixa-me provar desta sua boca, enquanto sei que estas em mim, indo e vindo me deixando tonta, louca.

Profana meu santuário, derrama de ti no meu ventre, deixa eu te sentir quente,
Afasta-te de mim, devagar, só pra poder voltar.
...e volta quantas vezes puderes,
até que não possamos mais,
e então o seu colo será o meu ninho,
dormirei com o corpo molhado, cheirando a sabonete, colado no seu.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Um personagem exibido em uma novela de uma importante Rede de Televisão tem trazido á tona um assunto que desperta em mim profundos sentimentos.

Já vi o tema em revistas, em programas de auditório e por algumas vezes também em crônicas da mídia impressa.

O Fato é que a esquizofrenia só ganhou o palco por conta do tal personagem.
Mas quem convive com ela; e só quem convive; é capaz de entender em grau e proporção o que se vê na telinha.

Sou da época que esquizofrenia nem existia.
O termo era “louco” mesmo.
No máximo mencionava-se uma depressão profunda.
Não se separava uma coisa da outra, e depressão também não era algo levado a sério.
Depressão era coisa de gente preguiçosa ou desmotivada.

Eu jamais saberia dizer que minha mãe tinha esquizofrenia.
Ouvia dizer que era depressão. Profunda.
E sabia que o que quer que estivesse acontecendo com ela a roubava de mim.
Hoje sei que ela foi roubada dela mesma.

A lembrança mais remota que tenho de minha mãe é
em uma tarde fria, as luzes da casa apagadas, ela no quarto escuro, deitada...
lembro que já fazia muito tempo que eu a chamava pra brincar comigo...(para uma criança de 04 talvez 05 anos saber precisamente o tempo é impossível...pode ser que fosse apenas alguns minutos, mas o fato de esta lembrança ser tão forte em mim me faz pensar que realmente faziam horas que eu a chamava...). Lembro que ela respondia algo, mas a impressão que eu tinha é que não me ouvia de fato.
Eu sentia que ela nem me via mais. Parecia que eu não estava lá.
Hoje sei que quem não estava lá era ela.
Minha mãe já se perdera dentro de si.
...Depois disto todas as lembranças são uma sucessão de ausências.


Sei, por fotos, que ela foi uma jovem bonita, meiga, jeitosa.
Sei, por relatos de vizinhos que era uma dona de casa cuidadosa. (minha irmã conta que deslizava nos tacos da casa, de tanto que ela lustrava)
Sei, por meus irmãos mais velhos que era uma mãe cuidadosa, que era capaz de acordar as 5h da madrugada para buscar o pão fresquinho para minha irmã tomar café antes de ir trabalhar.
Sei, por ela mesma, que adorava cozinhar, que tocava violino, que costurava.
...Mas não me lembro de nada disto.


Sei apenas que aos 6 anos de idade eu já sentia claramente que ela não notava o que quer que ocorresse comigo.
Perdida na sua dor, nas vozes de sua cabeça (hoje sei que ela ouvia vozes) ela estava sempre ausente e irritada. Agressiva. Sempre acreditando que alguém nos manipulava em tudo que fazíamos.


Na época minha irmã do “meio” estava com 10 anos e é dela a lembrança que tenho de cuidados maternos.
Ela que ia até a pré-escola saber sobre mim, (sim, aos 10 anos de idade ela mandava bilhetes para a professora se cismasse que algo errado estava acontecendo).

Os meus irmão mais velhos, nesta época com 16 e 18 anos respectivamente (talvez mais ou menos) viveram o profundo do trama que envolve o preconceito com a doença.
Penso que para dois adolescentes foi insustentável e impraticavel lidar com algo que não era visto como doença.
A agressividade que eles sofriam, por parte da doença e por tudo que tem de frágil o universo juvenil os levaram para longe de nós.


Em um emaranhado de lembranças, todas elas cheias de ausências, vazios, frios e incompreensão do que de fato estava acontecendo, vi minha casa lentamente desmoronar.
Ela colocou fogo em algumas coisas, outras ela ia depenando e esparramando pelo quintal.
O resto foi se deteriorando por falta de cuidados.
E a única coisa que eu ouvia a respeito de minha mãe era: Depressão. Profunda.

Mas o fato é que ela enlouquecera.
Era isto que as crianças gritavam nas horas de provocação.
Louca.
Hoje eu sei que tem um nome mais bonitinho...ou não, o nome também é feio. Mas pelo menos hoje se luta para que tais pessoas sejam tratadas com o respeito que uma pessoa doente merece. E que sua família,igualmente seja amparada, como a família de um doente precisa ser.

Mas o fato, exposto a exaustão pela mídia, é que o preconceito permanece.

...é indiscutível o dilema que a família sofre sobre como tratar a pessoa doente.
Para meu pai, ex-marido, e meus irmãos tenho a impressão que a idéia de interná-la foi algo contra a qual lutaram arduamente.
Mas sem conviver diariamente com o fato, ter dilemas é mais fácil.
Quando se deita e acorda todos os dias com o fato é inquestionável a incapacidade de tratar alguém que já chegou no limite da sanidade.
Sem a internação seria impossivel.
Como encerrar a quem se ama, sabendo que ela será amarrada, sedada e sabe-se lá mais que?
Definitivamente, tenho a impressão que eles lutaram para não fazer isto.

Há 20 anos atrás e ainda hoje, os loucos são alvo de zombaria, e quando vemos um destes vagando pelas ruas dificilmente lembramos que por trás daquele farrapo de gente, sujo, fétido, delirante, existe uma história.
Muitas vezes são confundidos com bebados ou dependentes quimicos.


Eu pude vagar por meu bairro, aos 10 anos de idade, muito mais que uma vez procurando por minha mãe e não raras vezes conduzi-la pra casa sentindo-me profundamente humilhada pelos olhares dos coleguinhas.
Suja, descabelada, delirante, pouco falava e quando o fazia suas frases não tinham sentido algum... e muitas vezes agressiva:
Mais que uma vez eu e a outra irmã que ficou, tínhamos de dormir no chão do banheiro, esperando um surto de raiva passar.

...não vale a pena enumerar todas as situações que trago na lembrança, principalmente por ser uma etapa de minha vida que já foi vencida, e mesmo por que tudo que quero é juntar minha voz a algumas publicações que li a respeito.

Uma delas mencionava que certo deputado defendendo o fim dos hospitais psiquiátricos mencionou que eles só existia por familiares que queriam se ver livres do parente problemático.
O cronista, inconformado, pai de um jovem esquizofrênico, bradava que tal comentário só podia vir de quem desconhece a dor de ver seu querido alucinado querendo atacar a família e muitas vezes agredir a si mesmo.

É impossível conceber o que vive um parente de alguém portador de esquizofrenia sem viver este “umbral” junto.
Só quem vive esta dor poderia se pronunciar.
Como na maior parte das dores.
Nunca diga: eu sei o que está passando, se de fato não souberes.
...conhecimento, letra, informação, nada disso explica a realidade diária de uma dor a conta gotas.

Fim aos hospitais psiquiátricos?
Não tenho conhecimento legal pra me pronunciar a respeito, mas eu asseguro que foi um hospital psiquiátrico que devolveu minha mãe para mim.

Lembro até hoje o dia que ela foi internada.
Era dor e alivio. Alivio pois eu finalmente poderia dormir em paz.
Alivio pois eu não teria mais medo de ela sumir.
Eu não viveria mais com medo de ela se perder na rua, nem teria que procurá-la pelo quintal no meio da madrugada.
Alivio pois pela primeira vez na vida eu tive a impressão de que alguém fazia algo real por ela.

Lembro que tempos depois meus irmãos falaram que ainda havia um “fio” de sanidade nela, e que foi este fio que os médicos começaram a puxar.
Quando a trouxeram de volta nos advertiram que jamais ela poderia ser deixada até aquele estado novamente, ou nada haveria que a puxasse de volta.

...hoje ela conta que muitas vezes teve de ser presa na cama para dormir. Lembra da rotina hospitalar com carinho pois foi lá que ela travou sua maior batalha e venceu.
Venceu porque havia um exercito capacitado ao seu redor e não apenas crianças que já nem sabiam como amá-la.

O período de afastamento profundo deixou marcas.
Ela tem traços e manias próprias do longo período de alheamento pelo qual passou.
Se olharem ela andando na rua sem dúvida perceberão que ela é diferente.
Ela já não toca violino.
Não consegue mais administrar uma casa, ou cozinhar como antes.
Mas agora ela está ali.
Eu sei que ela me vê e eu também posso enxergá-la

Toda vez que ela se afasta, se ausenta, se confunde, o velho fantasma urra aos pés da minha cama.

E eu lembro que não posso deixar que o fio se parta.
Ou jamais a terei novamente

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Responda...

Explica por que esta vontade estúpida,
Esta vontade sem dono, que vem sem ser chamada?

Explica onde foi que perdi meus versos, onde foi que entreguei o pensamento?
Quando foi que meu corpo decidiu por mim que seria seu?
Explica por qual motivo com todos os abraços, e bocas e pousos que eu poderia querer eu só desejo pousar em ti?

Onde foi que o certo se perdeu, e não há mais certo, nem errado nem coisa alguma entre um e outro?
Onde foi que o seu cheiro se misturou com o meu, e não importa os rumos, nem as vontades diversas, importa apenas sentar-me diante de ti e beber de seus olhos, de seus gestos, beber deste seu sorriso que me leva a perdição?

Conta pra mim, porque o som me traz você, e se fico em silêncio você também está lá???

Já decidi não querer, mas quando não te quero percebo que te quero neste não.
Pra não te querer tenho de rasgar os versos, calar a música, o riso, e todos os gostos de todos os beijos...
Na ausência de sua boca não há outra boca onde eu possa te esquecer...
A falta do seu cheiro tem o mesmo cheiro que você.
A falta do seu gosto tem o seu gosto.
A falta que você me faz, traz você mais perto todo dia.

Conta-me por que no meio da noite acordo perdida, os pensamentos confusos, sua voz me chamando, e você não está mais lá...,
Responda-me, explica-me...
Ajuda-me a te tendo tão perto de mim,
te levar pra longe daqui...

Responda-me,
mas sem artificios,
sem buscar maneiras de parecer mais fácil do que é,
responda apenas como faço pra te tirar daqui...
...de mim.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

...aplausos.

Não acredito mais em uma porção de coisas que já acreditei um dia.
Mas acredito que reencontrarei as pessoas que marcaram esta minha vida.
Pessoas que contribuíram pros rumos que tomei.
Acredito que não existe Adeus.
Mas acredito na importância de festejar, homenagear, os que cumpriram sua missão.

Nada ainda foi capaz de tirar de mim a certeza de que dentro deste corpo perecível é que mora quem somos.

Nós não somos este corpo, muito embora ele seja meu grande aliado na vida.
É nele que faço minha morada, é ele que externa quem sou.
É nele que sinto e através dele que posso ser sentida.
É ele que abriga a verdade que pulsa e leva meu nome e por isto muitas vezes tento protegê-lo de mim.
Minhas vontades ou falta delas podem agredi-lo, e vezes diversas percebo que ele dá contorno aos meus sonhos ou me traz de volta a realidade por suas infinitas limitações.

...mas a despeito de toda a importância e apego que eu tenha com ele, nada me convence que somos um corpo e só.
É algo forte que vejo nos olhos de minha filha e me faz ter certeza que é dentro daquele corpo que mora minha princesa.
É algo que se vê dentro dos olhos de qualquer pessoa que saiba que é eterna.
È algo que se encontra quando abraça um amigo, e naquele abraço descobre o mais forte dos amores.

Eternos.
Somos eternos.
A despeito do que tenham nos contado, a despeito do que o credo de cada um forneça como explicação, o fato imutável dentro de mim é que somos eternos.

Creio na eternidade disto que alguns chamam de alma.
De que forma, como e onde?
Não sei...
E francamente????Nem me importa saber.
Creio que nem devemos saber.

Não é pra isto que estamos aqui.
Não é pra saber o depois, embora muitos de nós percamos todo o caminho na busca de saber ou garantir o depois, não é pra isto que estamos aqui.

Estamos aqui pra aprender o Agora.
Para honrar o Agora.
Pra justificar o Agora.
Pra contagiar e contaminar os espaços que ocupamos com a oportunidade que este Agora nos concede.

E, importante me fazer clara, este Agora não é o mero hoje vivido intensamente, o Agora é o espaço de 15, 48, 50. 56, ou 61 anos que nos for dado viver, dentro disto que pensamos ser nós.
Estamos aqui pra cumpri nosso papel, inteira e integramente. Durante todo o tempo que durar o agora.

...e então no derradeiro momento de deixar esta morada, que seja com o profundo sentimento de haver cumprido aquilo que devíamos, e podíamos e queríamos.
...e ai, tudo faz um pouco de sentido.

Tudo se torna uma festa, pois então não será adeus, será apenas um breve tempo até que possamos finalmente entender que o mais ainda está por vir.

...as pessoas que me conhecem de verdade, e conhecer não é ver este ser falante e confuso que sou muitas vezes, mas os que conhecem parte do que sou de verdade sabe que brinco muitas vezes dizendo que ao longo da vida espero fazer ao menos 06 amigos de verdade.
Pois existem amigos que são mais que irmãos,
pois mesmo que o tempo e a distancia mudem seus rumos, suas almas ficam ligadas de uma tal generosa forma que um sempre saberá por onde anda o outro.

Eu quero, na partida, velhinha se possível, que tenham seis velhinhos (as) pra lembrar de mim coisas que ninguém mais saberá....e serão eles que me prestarão homenagens de partida.
Cada vez mais tenho certeza da importância dos laços criados ao longo do caminho, e cada vez mais a certeza da Eternidade muda quase todas as escolhas.

Aos 20 anos de idade eu nem sabia pra onde ir.
Só sabia que tinha um bebê que precisava de mim pra viver.
Eu tinha tanta urgência e tanto desejo de entender tantas coisas mas me perdia nesta busca e restava-me apenas lutar pra suprir o hoje.

Aos 20 anos Conheci uma pessoa, a primeira amiga que tive longe do meu local de nascença,
Longe dos preceitos que conheci como sendo verdades absolutas; e esta pessoa sem fazer um único discurso, apenas com seu exemplo de amor e doçura acendeu em mim o vislumbre da idéia de que Sou eu a responsável por minhas escolhas e colho o fruto de cada uma delas.

...esta pessoa me chamou de filha, me lembrou que eu era forte e que sou eterna.
Lembrou-me que eu tenho tudo o que preciso pra honrar minha existência e que o mais eu posso conseguir, e se não conseguir era porquê de fato não precisava...

Hoje é pra esta mulher que conheci ha treze anos minha saudade e minha alegria.

Alegria pois tenho certeza que ela fez bem mais que seis amigos ao longo do seu caminho.
Alegria pois, de forma indireta, e também direta, devo a ela o fato de eu estar no meu caminho...Não sei se vou conseguir chegar, mas sei que estou no caminho de encontrar a pessoa que sou.
Devo a ela a certeza de que ainda que eu morra sem chegar, isto não importa...não será o fim.

...permito-me chamá-la de amiga, mas na verdade ela não foi minha amiga: Foi um anjo em minha vida. Sem dúvida.

Amiga: Siga em paz.
Nós nos reencontraremos, de alguma forma, tenho certeza.

Faço a ti minha homenagem em forma de letras, pois não me é dada outra forma de te homenagear.
Um beijo.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

...Quando o adeus é só o começo.

Desespero de minh’alma,
Desassossego que me trouxe sua presença e logo em seus braços fui encontrar pouso.

Logo ali, em sua vida sem rumo, fui achar sossego pro meu corpo, pros meus gostos pros cheiros todos que sempre procurei.

Não havia em você nenhuma verdade, e mesmo assim abracei-te tão forte que quis te ter dentro de mim.
Todas as vezes que mentia pra mim eu acreditava...
O teu cheiro foi fazendo parte do que eu era.
Abraçar-te era pouco, eu queria estar dentro de você.

E mesmo assim você se foi, perdido nas suas noites mal-dormidas, nas suas histórias mal contadas, nos seus afagos já negados.

Mesmo que eu te quisesse, mesmo que eu aceitasse, mesmo que eu tivesse me calado sei você que teria partido.

Teria partido, pois construímos um abismo entre nossas vontades, entre nossos sonhos, entre nossos quereres.
Teria partido, pois eu ainda não sei servir a outro alguém.
Teria partido, pois o que procuravas em mim não poderia encontrar.
Sou feita de outro tipo de matéria, e isto que urge em mim precisa ser moldado pra enfim pertencer a outro alguém.

Posso amar-te, e beber do seu gosto, mas não posso corromper meus sentidos.
Não posso negar minhas asas, cortar meus caminhos, romper com meus princípios.

Amava o cheiro da sua boca, e se fechar os olhos ainda posso senti-lo.
O seu abraço foi o melhor abraço que eu já tive e o seu beijo fez poesia em mim.
...mas existe um lugar onde quero chegar e lá eu só posso entrar acompanhada de quem sabe onde está indo.

Eu me desmonto sem você, mas ao teu lado eu perdi o brilho o senso o rumo.
O medo de perder-te fez de mim fraca, falha, desnorteada.
O medo de perdê-lo me fez perder-te mais rápido,
mas quando te perdi percebi que finalmente eu havia me encontrado novamente.

Eu sei onde estou indo.
Sem você fará mais frio, não haverá música, não haverá torcida, nem afagos, mas eu vou chegar.
Vou pra lá sozinha se for preciso, mas vou chegar.

...Ainda que tua falta me maltrate,
Não ter você será apenas mais um motivo pra eu caminhar.
Eu sei que tem uma quantidade enorme de coisas grandes esperando por mim...e eu vou buscá-las.

Te perder me fez ter certeza que estou no caminho certo e que este caminho, se for preciso, trilharei sozinha.
Um dia nos encontraremos.
Até lá espero estar imune ao que o teu cheiro me causa.

E que nem mesmo o desvario de meus amores me faça implorar pelo ultimo beijo...o beijo que não demos.

Que em nosso futuro encontro eu te encontre devidamente encontrado consigo mesmo.
Que você encontre rumo nos seus dias, e eu, certeza nos meus.

E ai... Ai terei certeza de que o adeus só nos fez bem.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Amor com cheiro de pão.

Madalena o espreitava todos os dias, por traz das grades do portão velho da casa igualmente velha.

Ela já sabia o horário que ele iria sair pra comprar pão.

Aprumava-se toda e descia as escadas correndo, grudava o rosto na grade fria do portão.

Olhos brilhando na certeza de que dali a pouco ele surgiria diante de seus olhos.
Cabelos molhados, camiseta, bermuda, chinelo havaianas.

Ela poderia sentir o cheiro de sabonete, mesmo assim de longe.
E quanto voltava o cheiro dele se misturava ao cheiro de pão quente que a imaginação dela produzia.

Ele iria olhar pra ela de rabo de olho e fazer de conta que não notava que todo dia ela estava lá...esperando por ele.

Depois de alguns meses ele mudou o horário de buscar o pão, ou não buscava mais.

Ela resolveu montar guarda cada dia em um horário, em turnos de duas horas, durante toda a manhã, de forma a descobrir que horas afinal ele buscava o pão.
E logo descobriu que agora quem buscava o pão era dona Emercina, a mãe do rapazote.
Pensou em perguntar por onde andava o menino...mas desistiu...seria ridículo.

Resolveu então descobrir se havia outro horário que ele passasse em frente ao seu portão.
Logo descobriu que não.
Ele evaporou no ar.
E assim foi durante um longo mês.

Até que em uma fria manhã da primeira semana de agosto ele passou de novo.
Ela, sentada nas escadas, já desistira de esperar por ele.
Apenas descia, no mesmo horário, pois já virara um costume e de certa maneira era uma forma de senti-lo perto.
...e ali sentada, olhar perdido no muro do outro lado da rua, ela o viu passar.
Perfumado. Camisa de manga comprida, calça jeans, sapato de couro.
O cabelo com gel modelava o rosto de anjo e o andar já não era mais do menino que conheceu. Agora ele andava estufando o peito, ombros largos marcando a camisa de pano fino.
...Olhou na direção dela.
E sorriu.

Madalena agora sabia que ele não era mais o moleque bobo que fingia não vê-la.
Finalmente ele sorriu para ela!

E na manhã seguinte de novo e na outra também.
E logo não era ela somente que o esperava pela manhã. De tarde quando ela saia do colégio era ele que a esperava na frente do portão.

E de pão em pão, sorriso em sorriso foram travando este contato diário.

...nunca ser falaram.

Logo ela começou a trabalhar, estudar a noite e nunca mais o viu.


Anos mais tarde, sempre que ia comprar pão lembrava-se dele.

Lembrava do menino que passava férias longe e sempre que voltava parecia ter crescido um palmo.
Lembrava do cheiro de sabonete, do cabelo com gel e do sorriso largo.
E sempre acrescentava ao cheiro dele, o cheiro de pão quente.

Lembrava da última vez que o virá, na porta do colégio, no último dia de aula.

Pensou que ele viria falar com ela, mas ele apenas sorriu.
Sorriso largo, mas tímido, de menino.

E seria esta a doce lembrança que o pão quente sempre lhe traria.

Até que um dia, ao sair da padaria esbarra em um homem...

Rosto marcante, com uma “sombra” de barba por fazer, cabelo com gel...
Ele pede desculpas pelo esbarrão e sorri.

...o sorriso... Sim! Era ele!

Ela devolve o sorriso, estende a mão e diz:

- Muito prazer, meu nome é Madalena, há anos que te vejo comprando pão.

Soltam uma gostosa gargalhada e voltam juntos pelo caminho, prenunciando que em breve só um deles iria comprar pão.
Para os dois.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Fim.

Depois de iniciar um sem fim de linhas inacabadas percebo que não há nada para escrever sobre o assunto.
Nada.

Apenas a certeza de que quase sempre se paga um preço alto demais por acreditar.


...o bom é que é inverno.
E fim combina com inverno.
...o outono irá chegar e junto com suas folhas amarelas pode ser que o vento leve pra longe de mim a saudade.

Mas e se não levar?

Fim. Fim e ponto.
Odeio pontos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Insana.

Sua roupas sujas, seu cabelo despenteado, seu olhar perdido.
A noite toda parece estar dentro dela.

A voz rouca não sabe cantar, a boca seca como seca é a vida.
Os braços que outrora produziam sons agora pendem ao lado do corpo e nada parece fazer sentido.
A rua longa.As pessoas, todas, insuportáveis.

Na sua insanidade ela pensa que não a enxergam.
Pensa que só ela vê tudo, pensa que seu corpo enfadonho esconde-se atrás de seu silêncio. Acredita que se não responder será como se não estivesse ali.
Então se cala.
Ouve mas faz que não está ali.
Calada pensa que se torna invisível e invisível não precisa ser.
Não precisa mais ter imagem, ter rosto pintado, boca manchada pelo batom. Pode esquecer os cabelos em um novelo, como se fosse lã abandonada.
...A pele sem vida, as mãos ásperas,
o corpo encurvado que sangra todo mês insiste em lembrar que ela ainda está ali, mas ela pode mentir, dizer que não viu, que não sabe, que não é.

Anda pelo quintal, com fome.
Ainda sente fome.
Tanto faz se é dia, se faz sol, se é frio. Não sente frio mais.
O frio que vem de fora não pode alcançá-la. Nem o calor. Nada a pode alcançar.
Nem a voz delas.
Nem a ausência dele.
Só as pedras que junta na mão e carrega pra um canto do quarto. Só as pedras a tocam.
As pedras que junta na alma e com calma escolhe no quintal.

As pedras estão ali. Ela não.
Ela já se foi e só o corpo que sangra, permanece andando pelo quintal.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Princesa perdida.

O quarto cheio de fumaça intoxicava seus pulmões.

O lugar simples, beirando o promíscuo, em nada a incomodava.

Seu ser era volátil, e seu corpo acostumara a repousar dias em lençóis de cetim, dias em colcha cheirando a mofo.

Culpa de uma infância miserável passada em uma casa cheia de ratos de onde vez ou outra era tirada pelo padrinho que e levava a restaurantes e hotéis requintados.

Ele dizia que era para ela saber como se comportar em lugares “finos”.

E assim desenvolveu uma personalidade mista: Horas mesquinha e vil como uma ratazana suja, hora delicada e sutil como uma dama perfumada.

A fumaça não a deixava dormir.
Ele já havia apagado o último cigarro, mas o quarto pequeno não liberava a fumaça e ela sentia a cabeça rodar.
Ouvia os sons que vinha do corredor. Gente da noite, sem rumo e sem dono, passava por ali.
Ela se perguntava todo o tempo se aquilo era real, e qual o risco que corria.

O conheceu nas páginas de um site de relacionamento.
Perfil falso, desde o início ele criara uma atmosfera de “Fera” que ser esconde da “Bela” por medo de mostrar sua feiura.
Ela, centrada demais, realista demais, irritava-se com a brincadeira ao mesmo tempo cultivava simpatia pelo homem que sofria escondido atrás do desenho.
Por dias, por semanas, destilou o segredo, mas logo confirmou-se o que de feio escondia:
Ex-detento saíra da prisão havia dois meses.
Seu sonho, seu desejo de brinquedo era encontrar sua princesa vestida levemente e amá-la por toda uma noite.

Ela deu sua palavra.
Prometeu que lhe realizaria o sonho.
Ao menos se entregaria para ele. Ser princesa ela não sabia.
Perdida demais, perdera a muito seus sonhos.
E decidiu que alguém teria uma noite de sonho, já que todos os sonhos dela, desde menina, jamais haviam se realizado.

E saiu sozinha em uma noite de abril.

Foi conhecer a Fera. Encantou-se com seu jeito gentil e assim como a Fera do conto de fadas viu nele um príncipe.
Sonhou com ele seu sonho de brinquedo, e mesmo com seu vestido negro, como negra era sua alma, vestiu-se de princesa para ele.
Ele nunca se perguntou o porquê de o vestido ser negro: Ela não sabia ser princesa. E assim, indignamente vestira de negro a princesa dele.

O ar carregado queimava seus pulmões e ela por ouvir “eu te amo” se deu a ele como nunca se dera a nenhum outro.
Sentiu dor.
E ele, alucinado em levar a cabo seu desejo, sua vontade, sua fome; amou-a sem parar, ainda que ela sentisse dor.

...



Quando tudo acabou ela foi embora com medo de si mesma.
Com medo de uma coragem que beirava a insanidade.
Foi embora sentido no corpo dor e na alma medo. Medo em tentar descobrir o que foi que acontecera com seus sonhos de menina.

Seus cabelos cheiravam a cigarro, e como que se arrastando seguiu para seu apartamento.
Tentava lembrar quando foi que desistiu de seus sonhos.
Naquela noite chorou muito, chorou a dor de não poder amar como ele sonhava, chorou a lembrança de quando seu corpo era um castelo ganho a custa de muitas lutas.

Durante dias tentou acreditar que fizera mesmo aquilo.
Ela sabia que pareceria devasso aos olhos alheios.
Parecia devasso aos seus próprios olhos.

Mas ele...ele acreditava em sonhos. Acreditava em fadas...e a chamava de princesa.
Mesmo quando ela ser vestira de negro. Mesmo assim ele a chamara de princesa e dissera que a amava.

E foi assim: vestida de negro, em um quarto qualquer, repleto de fumaça,que ela se fingiu de princesa.
E seria este, para sempre, seu melhor conto de fadas.
Princesa, perdida.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Sobre a ótica das coisas...e dos seres.

Planejava escrever outra coisa, tenho um texto que está se formando dentro de mim há dias, e só não tive tempo ainda de dar corpo a ele...
Mas a recente descrição que minha filha fez de mim,
me fez escrever compulsivamente enquanto digeria uma insônia pós-feriado.

Confabulávamos eu e ela, lá pelas tantas da noite.
Ela cobrando de mim a certeza de que vou ganhar na mega-sena,
Eu, por minha vez, tentando convencê-la da velha ladainha que dinheiro não é tudo. (Pior é que acredito mesmo nesta ladainha).

Embasada em minha profunda vontade de convencê-la disto,
contei a ela que existe um ditado popular que diz mais ou menos assim: “Sorte no jogo, azar no amor”, ou vice-versa.
Diante de tal e fatídico carma, eu sem dúvida alguma optava por ter sorte no amor.
Vai que jogo na mega-sena, ganho e me declaro infinitamente uma infeliz na arte de amar e ser amada.
...ela, na sua “deslavada” sinceridade me dispara a seguinte frase:

“Mas mãe, você já tem namorado!
E, se ele gosta de você assim:
Pobre,
com uma filha chata,
uma mãe nas costas,
uma cachorra gorda,
um gato que não acerta a areia,
imagina como ia ficar louco por você, se fosse rica!!!!”



Depois de rirmos como loucas as 2horas da manhã, tentei explica a ela que não era esta a questão:
É lógico que eu encontraria quem me amasse: Com dinheiro pra rasgar, podendo encher um pouco aqui, diminuir ali, ajeitar acolá,
Com tempo de sobra pra agregar cultura, conhecimento,
Viajar, conhecer gente e lugares diversos, é obvio e certo que me tornaria alguém bem mais interessante do sei que já sou, (sem falsas modéstias) e possivelmente fosse até mesmo amada de fato...
Mas, será que eu amaria???

...enfim, perdida ficamos nestas divagações todas, até altas horas,
Mas o fato concreto, o que ficou ecoando no meu cérebro até a hora de ir trabalhar foi a descrição que ela, logo ela, fez de mim:

Pobre, (e eu ainda achava que dava a ela mais do que tive!!!)
Com uma filha chata, (a danadinha sabe que é chata!!!)
Uma mãe nas costas (minha mãe ficaria horrorizada de ouvir isto!!!!)
Um cachorra gorda (a Pituca é obesa, precisa de cuidados, grunfffffff!!!!!)
E o tal gato que odeia a areia. (E o gato nem é meu, faço questão de frisar!!!!!).

Cruzes! Olhando assim, por esta ótica, me senti uma tia-avó, Detestável, Assexuada,
Noveleira, Enfadonha, Mal amada e ainda por cima cercada de bichos pulguentos!
Logo eu, que me sinto plena e absoluta, (apesar de não dirigir: segundo minha chefe mulher que não dirige não é plena e absoluta).

...pois é. Já havia mesmo descoberto, quando assisti “Sociedade dos Poetas Mortos” que tudo tem mais de um ponto de vista.

Eu hem!
Preferia ter ido dormir sem esta!!!!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

...Ponto Final.

Lí, dia destes, em um espaço que me foi apresentado, no perfil da dignissima moradora do local algo interessante: "...dúvido do ponto final."(http://adisparatada.blogspot.com/).

Gostei do termo.

Assim como ela eu também dúvido.
Aliás vou além...não tenho dúvida alguma: não acredito no ponto final.
Acredito na reticência, na interjeição, na interrogação.
Acredito nos parágrafos, que sempre nos levam ao começo, a um trecho novo mesmo dentro do mesmo velho texto...

Sem falsas filosofias, sem preceitos dogmáticos, sem apegos religiosos:
Eu acredito na renovação.
Acredito nos começos, nos meios e que o fim nunca é de fato o fim.

Acredito que ainda há uma "porção de coisas grandes pra eu conquistar, e eu não posso ficar aqui parada."
Acredito que até o último dia de minha vida ainda vai valer a pena iniciar um texto, um projeto um amor, um caminho...

Acredito que cada uma de minhas dores, de meus temores, de meus lamentos só são meus e de ninguém mais e é só ai que está o ponto final.
Depois disto, todo o mais é possibilidade, é entrelinha, é entre aspas, é sugestivo e exclamativo!

Todo o resto pode até ser interrogação, mas ponto final?
Não. Não acredito nele.
E ponto!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

...sua verdade.

Chove.
O som das gotas no guarda-chuva, o cheiro, e mesmo seus sapatos molhados aliviam os seus humores.
A chuva tem o Don de fazê-la sentir-se melhor.
Tem dias que o sol parece uma afronta ao seu ânimo.
Aquele céu tão azul parece zombar dela.
A chuva não zomba. A chuva lhe faz companhia.

Abre a porta.
Silêncio.
Delicioso silêncio.
Chuva forte. Solidão.
Irrita-se, pois alguém lhe disse logo cedo que ela gosta da solidão só por nunca ter estado realmente só.
Mentira.
Ela gosta da solidão porque é ela a sua verdade.

Não as pessoas ao seu redor,
não o quintal sempre cheio de sons.
Não o trem cheio, a vida cheia, as paixões todas.
Não.
Sua verdade é o estar só.

Nunca existiu alguém batendo na porta quando o relógio não desperta,
Nem o cheiro de café antes de sua mão posta sobre o bule.
Nunca ouve alguém em algum lugar pra fazer algo.
Sempre palavras. Palavras incentivadoras, palavras animadoras,
Palavras ...mas nunca um único gesto palpável.
Nunca a mão estendida com o remédio que alivia a dor.
O prato quente com a sopa na noite fria.
Nunca o braço forte no fim do dia, quando a vida pesa ainda mais.

Nunca ouve alguém disposto a perder uma só hora de sono por ela.
Soube então, desde sempre, que a solidão era sua verdade.


Não há Fundamentos em sua vida. Nunca ouve.
Solidão sim.
Anda pela sala, sentindo o prazer de sua companhia.
Procura no dicionário o significado da palavra Apoio.
Fundamento. Estrutura.

Para ela apoio era o outro nome da Solidão.
A solidão sempre lhe apoiara, sempre fora sua base, seu fundamento, sua estrutura.


A Solidão combina melhor com sua roupa, com seu vazio, com o seu sono.
A chuva combinava melhor com seus humores.
Chove.
...E ela gosta.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Mentiram para nós. Tempo? Não existe.

Em um passeio por um recanto; nova moradia de uma querida; encontrei um pensamento que veio de encontro ao que sinto ferozmente ultimamente,
Tomo emprestado a angustia dela, pra descrever a minha:

"pensando em onde encontrar tempo, pra escrever um texto sobre minha cidade natal, convite feito por um amiga, q não posso desperdiçar..."

Não entendi muito como a coisa funciona por lá, mas voltarei com mais tempo dia destes.

Mas é impossível não comentar o último pensamento...

Tempo? verdade, companheira...cadê o tempo?

Tempo é uma coisa medonha que inventaram pra enlouquecer quem ama escrever, mora na Cidade Grande e ainda não ganhou na mega-sena ou se aposentou com uma aposentadoria bem polpuda.

Desisti do tempo.
Ou ele desistiu de mim.


Eu morro se não escrevo.
Morro mesmo.
Perco a fome, a sede,
perco o viso.
Parece que algo entala,
A dor é maior,
O abandono é pior,
os bichos todos,
aqueles do passado que só servem pra fazer sentir-se só e com medo,
os tais bichos do “eu interior”, (geralmente criados em uma infância mal estruturada, ou nas tantas outras mazelas da vida), voltam no meio da noite, no escuro do quarto ou no vazio da rua...isso se não escrevo.

Sem escrever minha rua parece que fica mais comprida no meio da noite quando sinto que minha bolsa pesa mais que às 6 da manhã.

Penso que todos nós carregamos no peito uma dor:
um desafeto,
um afeto perdido, um elo rompido,
uma dor qualquer.
lidar com isto é opção de cada um, e a ninguém pode ser delegado,
mas quando não escrevo parece que esta tal coisa escondida fica maior, e quer me devorar.
Escrever muda tudo. Até minha maneira de ver minha própria história.

Quando amo só amo de verdade se puder escrever este amor.
Quando desejo, escrevo, escrever torna real, o que não pode ser.
Ou pode e isto descubro enquanto escrevo.

Quando algo é indigesto, escrevo sobre, e a coisa desce, redonda, mesmo sem ser cerveja.

Quando tudo em mim some, eu viajo e conto contos que nem sei de onde vem.
Crio pessoas que nascem de uma ansiedade que me devora.
Crio pessoas que vivem coisas que jamais vivi,
Crio dores de dores que não são minhas,
Crio amores que jamais terei,
Busco coisas que jamais busquei,
quero coisas que nem mesmo quero.


Se não escrevo, morro.


Mas, ainda assim,
Ainda que totalmente apaixonada pelo ato de escrever, descubro sempre, que não há tempo.
Não há tempo.
Carrego dezenas de textos incompletos, cuja inspiração se perdeu no tic-tac de um relógio que me ameaça.

Onde encontrar tempo, quando o tempo escorre entre os dedos???

Já pensei em não dormir...
eis ai um tempinho que seria bem útil...
Mas dormir é um dos meus prazeres. Os braços de Morfeu sempre me encantaram,
E meu humor muda horrivelmente quando não durmo.

Comer...tai um tempo que eu considero desperdiçado.
Como porque preciso.
Como porque sou motivada por uma dor aguda no estômago ou por uma fraqueza que me lembra que esqueci o almoço...ou da janta, ou do café...ou mesmo de tudo no mesmo dia.
Esta coisa de ter de comer todo dia é coisa que oprime.
Devíamos comer só pro prazer, por vontade.
E não por esta necessidade biológica que nos consome as gorduras e calorias.
Eu trocaria a fome que sinto, por um tempo com meu teclado, só escrevendo.
Mas também não dá certo.
Somos frágeis como vermes.
Temos de nos alimentar.




...e assim, entre um texto e outro,
Entre uma vontade e outra,
Entre o sono e a fome,
Vou deixando vários textos se perderem na memória,
Várias histórias e Estórias que ficam esperando que eu possa enfim,
Trazê-las a vida.

Como uma mãe que se recusa a deixar o filho nascer, seguro no ventre este parto,
Na esperança que meu filhote não morra, sufocado no meio de minhas entranhas...
...

Hoje só posso desejar que minha amiga, aquela do pensamento acima, tenha encontrado tempo pra responder ao irrecusável convite da escrita...
Que a pressão imposta por tal convite não lhe tire a inspiração,
Desejo antes que tal convite a motive a separar dos seus dias sempre curtos, um tempo inexistente,
E assim como uma bruxa ela consiga criar o tempo que não existe,
Que com o talento peculiar que é concedido aos lunáticos amantes da escrita, ela possa também alimentar a esperança de ter tempo, mesmo quando tudo ao redor contar pra ela que não há um único segundo que já não esteja comprometido...

...porque tempo é uma mentira que inventaram pra nos fazer sofrer.
Ele é fictício e irreal como muito de nossos contos.
Tempo não existe.
Existe falta dele, e só.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

...ir, para o lugar de onde vim.

Eu preciso ir embora,
Talvez em outra parte esteja a arte que eu perdi.

Preciso tentar entender quando foi que eu deixei o que quer que era pra eu ser.

Sei que sou feita de outro tipo de matéria.
O que tenho sobre os ossos não são músculos, nem nervos nem pele...
Nem mesmo meus ossos são feitos do que é feito os ossos.

Meu sangue não é composto de hemácias e todo o resto que aprendemos na escola.
Ele é feito de algo que queima enquanto corre na veia.
Meu sangue é feito de algo que alucina, embriaga, sacoleja, move tudo ao meu redor.


Minha vida não é feita de um ontem, de um agora e um depois.
Ela é feita de um antes, ]
muito antes do que consigo me lembrar.
Preciso encontrar o lugar deste antes, pra entender do que sou feita.

Sei que minha carne, meus cabelos, minhas unhas estão aqui.
Mas eu não.

Preciso levar minhas entranhas pro lugar onde estou.

Arrastar este monte de conceitos,
de cheiros, de suores,
arrastar esta pele, estes olhos,
arrastar meus sonhos todos,pro lugar onde eu devia estar...agora.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Segredo de familia.

O beijo.
Foi na hora do beijo que ela decidiu que seria dele, por mais um tempo, por vários dias, por toda vida, se desse certo.

Quando menina sua irmã lhe segredara que no primeiro beijo a mulher pode identificar as mil possibilidades de uma relação.

Tem beijos que são bons, tem beijos que são muito bons.

Tem beijos que alegram, beijos que confundem,

Beijos que parecem técnicos, beijos que parecem arte.

Beijos que invadem e beijos que pedem pra fazer parte da sua boca.

Tem beijo que chega sem que se queira, e ai é tarde pois já não queres mais que ele parta.

Tem beijo que dá cócegas, beijo que dá nojo, beijo que dá medo.



Ela nunca colocara muita fé naquela teoria maluca, e sempre acreditou que o primeiro beijo, como mil outras primeiras vezes, nem sempre são as melhores.

Seguiu sua vida, de beijo em beijo,
Beijou alguns sapos achando que de fato virariam príncipes,
E, piadas a parte, logo descobriu que o inverso acontecia com frequência muito maior: os príncipes viravam sapo, depois do beijo, ou até bem antes.

Quando menina não entendia exatamente como aplicar a teoria da irmã, sábia instrutora na arte do amor.
Beijava sim, mas não tinha ainda despertado em si o quanto de fome há no beijo,
Não sabia entendia ainda como os cinco sentidos se aplicam ao beijo,
Que ele é feito de cheiro, de gosto, de tato, e, sobretudo de visão e audição.

Vida seguiu,
de beijo em beijo,
Menina se fez mulher,
E mulher feita, beijou pouco,

E a teoria de sua irmã jamais foi colocada em prática.



Até que a vida, nesta estranha mania que tem de nos empurrar pro recomeço,
A empurrou também.

E, na arte do amor, recomeço implica, necessariamente em beijo.
Pode-se abster de todo o resto, se for o caso, mas o beijo tem que acontecer.


Pode então perceber que o beijo primeiro escondia de fato uma estranha sensação de premonição.

O Tato, neste caso era para ela o primeiro sentido usado.
Media-se o calor, a umidade, a profundidade e força do beijo, mediasse tudo no tatear da boca.

O cheiro, ah, talvez o cheiro viesse antes até.
Aquele cheiro gostoso, que fica na nossa boca, lembrando que outra boca passou por ali.
Não é cheiro de creme dental, ou de bala, ou cigarro...é o cheiro que fica no fundo, escondido, que sentimos quando respiramos perto de outra boca.

O paladar,]
sim...beijo tem gosto, todos sabem,

E não vamos descambar pros gostos outros, nem sempre agradáveis,

Vamos nos ater apenas ao gosto da boca.
Cada boca tem um gosto, e este gosto alcança nossa boca de um jeito diferente.
Aqui se mesclam o tato e o paladar, como em uma dança, dando ao beijo ritmo.

Dos beijo que deu,
Encontrou sensações variadas,
Ritmos diversos,

Fugiu de vários,
Quis muito alguns,
Chorou por outros,
Desistiu de outros tantos,

Mas todos ficaram atados apenas aos 03 sentidos.

Não entendia ainda onde poderia a visão e a audição fazer parte disto,
Como lhe confidenciara sua irmã, nos tenros anos de sua meninice.


Até que,
Fim de tarde de um domingo,
Domingo daqueles,
Fim de campeonato,
O time vencedor não é o seu,
O livro que lê não chega logo ao fim, e tudo parece chato e vazio.

Um convite pra passear no shopping,
Um suco, um cinema...

Mas então,
Sabe-se lá qual foi a hora, mas ele decidiu, antes dela, que a beijaria.
E a beijou antes do fim da frase, afinal, ela não parava mesmo de falar.

E,
O beijo.
O beijo dele, silenciou a praça toda.
Não havia ninguém mais ali.
Ela poderia abrir os olhos mas não veria ninguém.
E um silêncio enorme tomou conta dela.

Ela já ouvirá falar de sinos que batem,
Mas o que ela ouvia não eram sinos,
Ela ouvia o silencio,
Ouvia o ar entrando e saindo dos seus pulmões,
Ela podia ouvir o sangue correndo mais rápido nas suas veias,
Ela ouvia o coração dele batendo, e o seu, ao mesmo tempo.


A praça inteira,( praça de alimentação de um shopping, movimentado e barulhento) foi tragada por um silêncio repleto de paz.
E mesmo com a alma repleta de paz,
Seu corpo todo tremia,
Os braços dele, e só isto, a impediram da dobrar os joelhos e cair estatelada no chão.

E ali,
Por uma fração de segundos,
Lembrou-se de sua irmã:]

“é no primeiro beijo que você sabe se aquele homem será importante pra você”,
“é uma arma feminina, que eles não possuem: somos capazes de ver e ouvir o beijo.”


...Sim. Agora ela entendia.

Finalmente.
Podia enfim,
passar o segredo adiante...

De fato:
Ela podia ver e ouvir aquele beijo.
O beijo dele.
E só o dele.

terça-feira, 17 de março de 2009

Camomila

Sentia que sua irritação logo se tornaria incontrolável.
Queria dormir mas não conseguira.
Na vã tentativa de buscar o sono resolve escrever.

O computador acabara de dar pau, de novo, antes que ela conseguisse salvar suas útimas anotações.

O cachorro do vizinho uivava, sem parar, despertando toda a cachorrada em um raio de quilômetros.
Pelo menos era esta a impressão que ela tinha : Todos os cachorros do mundo inteiro latiam e uivavam em um coro desesperador.

Na casa ao lado o morador acredita que a música que ele ouve deve ser compartilhada com tantas quantas pessoas forem possíveis...e aumenta o volume.
O coro dos cães segue o mesmo tom.

Ela empurra a mesinha do computador com os pés, levanta irritada da cadeira velha que range também, fazendo barulho.

Talvez não seja mesmo uma boa hora para escrever.
Tudo é barulhento demais para conseguir se concentrar em algo.

Faz barulho principalmente dentro dela.
Barulho de copo quebrado. Barulho de guitarra mal afinada.
Tamborins loucos saltitam dentro de seu cérebro.
Crianças gritam, mulheres falam, como sempre todas ao mesmo tempo.
Barulho demais.

A irritação que parecia sem fundamento assume proporções assustadoras e agora ela tem certeza que o maldito vizinho da casa ao lado é o culpado de tudo.


Ele tem culpa desta noite abafada, dos pernilongos sanguinolentos que lambem o repelente, e também fazem barulho, zunindo sem parar.
O vizinho infeliz tem culpa daquela dor de cabeça que começou há dias e não vai mais embora.

Não importa que o vizinho estivesse viajando quando a dor começou, a verdade, única e imbatível é que ele é um cão danado,
Devia cair rolando as escadas, mas não quando estivesse bêbado.
Devia cair sóbrio e quebrar uma perna.
Uma não; duas.

Ela detesta o vizinho nesta hora mais do que já detestou qualquer outra praga conhecida.
Detesta mais do que a ratos.

Abre a janela disposta a gritar pra que ele abaixe aquele som ridículo, e faça o seu cachorro desafinado parar de uivar.

Mas percebe que mesmo que gritasse a plenos pulmões dificilmente a dupla; cão e dono; ouviriam seus berros.

Veste um casaco, abre a porta.
Atravessa a distância que lhe separa da casa ao lado com passos largos e certeiros.

Entra sem bater, pois o cretino costuma deixar a porta escancarada,que é pro som ganhar o mundo com mais veemência.

Ela entra,
Semblante duro, voz engasgada, mãos tremulas.


E então para, estática.

Lá está ele:
Sentado no meio da sala,
Na mão a foto de seu filho, que ela ouvirá dizer que morrera muito jovem, vitima de algum mal desconhecido... daqueles que chegam silenciosos e ganham a saúde dos pequenos antes que você possa descobrir o que é.

Penumbra, uma xícara descansa sobre a mesa de centro.
Fotos esparramadas do menino.
o ambiente era alegre. Estranhamente era alegre.
Havia perfume no ar, perfume de camomila...

O som batia em um ritmo estridente e o cão continuava uivando.

Ela movimentou-se bruscamente no intuito de partir antes que a visse, mas neste instante ele levantou a cabeça e sorriu.

Chá???O cheiro era de chá de camomila.
Ela pensou que ele teria uma cachaça barata por perto, nunca uma xícara de chá.

Pensou em partir antes que sua irritação incontida tomasse rumos e proporções piores,

Mas, antes que pudesse sair, por um instante,
um único instante,
fez silêncio dentro dela.

A guitarra estridente subitamente afina-se em melodia forte, porém ritmada, os copos quebrando juntaram-se em movimentos mágicos,
Os tamborins assumem agora um toque alegre, as mulheres e crianças barulhentas agora cantam...

O sorriso dele,
o sorriso daquele homem sozinho com suas lembranças,
calou todo o barulho de sua alma.

Havia música na saudade daquele homem.
Música que invade e explica quase tudo.

Antes que o sorriso se transforme em uma frase ela volta pra sua casa.

Deita em sua cama e chora toda sua irritação.
Chora por ter perdido a capacidade de ouvir música.
Chora por não ter saudades.
Chora porquê faz barulho dentro dela.
Não importa pra onde vá e onde se esconda, faz barulho.
Todos os dias.

Dorme em cima do choro, em cima do uivo, em cima do rock.
Dorme engolindo seu grito, seu som, seu ranço
Dorme com o cheiro de camomila.

terça-feira, 10 de março de 2009

"Anticoncepcional x Máquina de lavar roupas"

Acabo de ver que o jornal do Vaticano, “L’Osservatore Romano” publicou artigo no qual afirma que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da mulher do que o anticoncepcional.
Polemicas a parte,
concordo em gênero número e grau com a tese de que a “Jurema” deve ser tratada com honras de chefe de Estado.

Jurema é o nome de minha máquina de lavar.
Coloco nome em tudo.
O aparelho de som é Julião.
O guarda-roupas Jerônimo, e por ai vai...mas sem dúvidas é a Jurema que domina o lugar de honra.

Já escrevi anteriormente aqui minha opinião sobre o ritual, considerado unicamente feminino, de lavar roupas... (http://eutodososdias.blogspot.com/2008/10/lavando-roupa-suja.html).

Sem dúvida alguma, e longe de mim pensar o contrário, o anticoncepcional nos deu uma possibilidade incomparável de vivermos plenamente nossa feminilidade, com segurança e literalmente de forma mais “relaxada”, no sentido prático da coisa, se é que me entendem...

Mas para mim o ponto chave na comparação “Anticoncepcional x Máquina de Lavar Roupas” é que
ser mãe é algo buscado por muitas mulheres,
o poder de gerar um filho no ventre é algo cobiçado por certos homens,
e por vezes a mulher abre mão do anticoncepcional,totalmente, na busca da maternidade.

Agora me diga, qual mulher almeja lavar um mega-cesto de roupas???
Que homem olha meigamente, doce e sorridente pra um balde cheio de água e sabão, onde serão jogadas meias sujas e fétidas???
Sim, nós esfregamos golas de camisa na mão,
usamos a escova de cerdas mais duras nas calças jeans, mas dificilmente abrimos mão da Jurema, totalmente.
Ela sempre esta lá: linda, absoluta esperando por nós, de braços,(ou seria melhor dizer tampa)abertos!!!


A paternidade participativa é propagada aos quatro cantos, é lindo ver um pai embalando um bebê, trocando-lhes as fraldas, uma mãe que ensina o homem a dar banho no infante é bem quista e imitada,
Hoje em dia o homem não pode simplesmente correr de suas responsabilidades, está ai o teste de DNA e o código penal que geralmente é aplicado nestes casos,

Mas quando simplesmente menciono que um homem deve saber lavar a própria roupa (e não só a cueca!) vejo os olhares que me atravessam, sendo vista como um ser desprovido de compaixão, ou até mesmo como uma criatura preguiçosa e sem qualidades para ser uma boa companheira.

Francamente,
Respeitando as proporções, não podemos negar o advento libertador que as Juremas do mundo inteiro nos proporcionaram!!!

Nada de ficar com braços doendo ao tentar torcer aquele edredom preferido do seu “benhê”,
Chega de bater calças jeans no esfregão do tanque,
Adeus ao processo lento e torturante de enxaguar as roupas!!!!

Viva a Jurema!!!
Viva a mulher livre que não abre mão de ser feminina, mas que não faz questão alguma de ser Amélia.


Feliz dia Internacional da mulher.

08/03/09

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Alguém...

Eu quero alguém pra ir além dos simples versos,
Quero alguém assim, que me olhe em mim,
que me veja em mim...

Alguém que me veja sem batom,
Que me olhe além do tom, além do porte, além do corte.

Alguém pra ser pra mim, o fim, o meio o termo,
Alguém que meus olhos fitem, que minha alma indique,

Alguém pra sentir falta, pra fazer falta,
pra ‘mi’dar alta desta dor.

Um alguém assim, inteiro em mim,
Perdido em mim,
perdido assim...como estou.

Alguém pra fazer rima,
pra dar em cima,
pra me perder na boca.
Alguém pra fazer charme, mostrar meus ares,
Entregar minhas armas, desistir da guerra.


Eu quero alguém pra sair na chuva,
pra brincar na água
Alguém pra dançar comigo,
Sem medo nem perigo.

Alguém assim,
Pra querer pra mim, todos os dias.
Todos os dias, por todos os anos de um vida só.

Eu quero alguém pra me contar que quer alguém, assim também.

Eu quero alguém pra fazer par
Pra fazer verso,
Fazer canção,
Brotar amor.
Alguém que me faça ouvir,
Que me deixe ser,
Que me queira assim,
Como o quero em mim.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Borboletas Eternas.

(Texto inspirado em meus passeios pelo blóg da Maria Rita, foto linda...Vale a pena ver:http://www.tatuska.blogger.com.br/2003_09_01_archive.html).


Borboletas são etéreas.
Mas vendo-a assim, flagrada sobre a flor,
Beijando a flor,
assim, neste instante que a fez eterna,
esqueço o tanto de fugaz que há em uma borboleta.

Meu pai chamava as filhas de borboletas...

Eu era a de asinhas azuis.
Nunca me esqueci disto.
Creio que minhas irmãs também não.
Meu pai, talvez tenha esquecido, mas creio que não.

Sou borboleta azul até hoje,
Nos meus sonhos,
Nos meus vôos.


O azul se tornou minha cor favorita, as borboletas uma paixão.

Mas não coleciono borboletas mortas, em um tampo de vidro.
Gosto delas vivas, voando...coloridas, selvagens...
Algumas parecendo feitas de veludo.
Destas faz muito tempo que não vejo.
...as vezes vejo umas branquinhas, ou amarelas voando pelo meu quintal
e vôo com elas seu vôo derradeiro.

Vou pesquisar, mas ouvi dizer que elas vivem muito pouco.

Injusto isto.

Passam o maior tempão se arrastando como lagartas, outro longo tempo naquele casulo e enfim quando voam, morrem...
...talvez a vida se torne sem graça.

Objetivo supremo alcançado só lhes restam voar rumo a eternidade...
Etéreas. Eternas.

Borboletas são etéreas,
mas naquela foto tornou-se eterna,
Como eterno é seu significado em mim.
Azul.
Borboleta Azul.
Liberdade Azul.
Ser livre pra Ser Etérea.

Eterna, ainda que etérea.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Vida...em mim.

...Gana, força,
Volúpia, deslumbramento.
Dançar, voar
Anseio, fome...

Fome de ser, de alcançar,
De misturar-se ao ar,
Ao vento,
A terra...
ao fogo

Certeza de que está no lugar certo,
Caminha na direção que deve,
Doa a quem doer.
É quem deve ser.

...é música, é silêncio.

As vezes lamento, as vezes riso.
Mas quando lamenta chora, pranteia, se afoga nas lágrimas,
E quando ri, gargalha, incontida e barulhenta.

Quando é poço, é fundo...
e é no fundo que bate o pé e sobe.
Sobe alto e voa.
Forte. Pulsante. Movimento. Dança.
Ritmo.

Isto é vida.
Vida em mim.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

...e viva o ano velho, pois foi bem vivido.

...mas um ano se passou.

Agora é aquela hora que pegamos aquela lista amarelada da gaveta
e nos damos conta do que deixamos de fazer.
...ou ainda, otimistas,
fazemos uma nova lista, como se a antiga jamais tivesse existido.

Eu, de minha parte, não quero listas.
Quero só sentir que estou viva.
Que tenho vida. Minha vida.
Quero olhar nos olhos da minha filha e saber que ela ainda pode sonhar.
Basta a mim a certeza de que com ou sem lista, ainda temos vida pra realizar.

...quero ir pra casa, neste ultimo dia útil com a alegria de quem tem um lar pra voltar.
um lugar onde realmente pode chamar de lar.
De uma maneira nova, sem protótipos,
uma família pra chamar de minha.
...
sei que vou travar algumas batalhas,
terei que exercitar meu nariz empinado,
e as vezes a língua afiada,
pra poder ser feliz,
pra poder carregar com honra minha filha em meus braços.
...mas tudo bem.

Ter vida,
e vida própria, pra cuidar, já é uma grande vitória.

Já me faz sentir realizada,
não pelo ano que esta por vir,
mas por este que já vivi.
...

2008 já vai indo,
mas é a ele que eu festejo...
Festejo ao ano que morre por que soube vive-lo.

E que venha 2009...
com a mesma força,
com a mesma fé.
...e com ousadia, se necessário for.
Mas sempre com vida, e vida própria.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Laços de Sangue

Há poucos dias eu confabulava com uma amiga sobre o poder de decisão.

Quase filosofávamos sobre o poder que temos de decidir que algo ou alguém não nos fará mal...
Ela me dizia que para certas coisas só o tempo tem o remédio,
Eu acreditando que o tempo na verdade nos ensina a usar o poder de decisão com critério, em cada caso.

...e hoje estou aqui, com uma dor no peito que sufoca e dilacera quase todas as minhas certezas.
Mas eu já decidi há algum tempo que posso escolher se isto me fará mal.
E não fará.

Ainda assim constato que algumas pessoas possuem o inesgotável poder de nos surpreender, o inesgotável poder de nos atingir.
...eu fui para lá com a certeza de que nada que eu ouvisse poderia me ferir.
De que nada que me fosse dito me tocaria, me feriria.
...Mas mais uma vez descubro que posso ser sempre surpreendida por suas palavras.

Doeu em mim não suas palavras, pois não consigo conceber que ele acredite no que me disse,
doeu pensar que ele não acredita naquilo mas falou com o único intuito de "cutucar", de levantar o pó das nossas almas...

E assim, com a alma em pó, fiquei ali, olhando aquelas árvores,
Sentindo o cheiro da chuva ...deixando o cheiro da chuva ir limpando o nó de minha garganta.

As lágrimas desciam e eu só as queria conter.
Mas minha decisão não surtia efeito diante das lágrimas.

Eu jurei que não choraria.
...foi mais uma das promessas que quebrei.

...mas aos poucos fui vestindo meu sorriso de festa, fui colocando no rosto a pessoa inabalada que eu gostaria de ser,
E sai de lá como se aquilo não tivesse pesado como chumbo dentro de mim.

...Sai de lá com a firme decisão de que aquilo não me fará mal.
...mas por hora, para que isto aconteça é preciso que eu não pense.

Não vou pensar nisto.

E ai descubro que não pensar nisto é dolorosamente não pensar nele.

Mais uma vez preciso esquecê-lo.
Mais uma vez este abismo enorme é aberto no meio de nós.


E tudo o que fica é a certeza do seu sangue, correndo no meu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

...perdendo o encanto.

Nesta época do ano era desnecessário dizer que lembrava dela ainda mais do que durante todo o ano.
E Lembrar dela era necessariamente se sentir o último dos homens.

Ela adorava as festas de fim de ano.
As lojas enfeitadas, o burburinho no ar, os presentes, as festas.
Pouco lhe importava se tudo era comércio, se o Natal tinha algum significado espiritual ou não.
A ela importava a beleza, o estético, o efêmero.

Ele andava pelas ruas com a alma consumida.
O cheiro dela estava no cheiro do panetone, no cheiro dos assados, das frutas cítricas.
O som do riso dela era lembrado no barulho das castanhas sendo quebradas.

...e esta época o fazia lembrar do presente que lhe comprara, na noite que ela se fora.
Naquela noite ele lhe comprara enfim o anel que ela tanto pedira.
Juntara dinheiro os últimos meses, mais parte do 13º , e finalmente na caixinha de veludo vermelho estava o pequeno tesouro.
Ele iria pedir-lhe em casamento naquela noite. Noite de Natal.

Chegou na festa da família e notou de imediato que todos os olhares o perseguiam.
Beijou a mãe, as tias, abraçou tios e sobrinhos, cumprimentou amigos.
Mas cadê ela???
Todos os olhos da festa fitos nele.
Até que a irmã, querida, confidente, amiga, que jamais gostara dela vendo seus vícios de menina matérialista e fria, lhe contou...
"Ela se foi...Saiu, no meio de todos, malas feitas, sorriso na boca.
Deixou só este bilhete pra ti."


...Já fazia tempo que ele percebia algo diferente.
Nunca tinha tempo pra ele.
Sempre saindo, sempre feliz demais longe dele.
Depois que começou a andar com a Lurdinha e o Cássio pra cima e pra baixo, algo mudara.
Ia a absolutamente todos os lugares com os dois.
As vezes iam os quatro, mas quando ele estava trabalhando ela não se importava de sair com o outro casal.
E ria riso solto com os dois.
Na cama o evitava o mais que podia, e quando a tinha,
Sempre de olhos fechados, rosto virado pro outro lado.
Gozava rápido. Ele acha que ela fingia.

Conversar com ele só pra pedir um cheque assinado, um vestido, um perfume...e pra lembrar da mensalidade do curso...e por ultimo o tal anel.
Ele achou que ela queria era ser pedida em casamento e arquitetou tudo com a família.
Já estavam morando juntos a mais de dois anos, e talvez a distância toda dela fosse vontade de casar, ter o nome dele, planejar os filhos estas coisas todas que a mulher quer depois dos 30 e que depois dos 35 já virou fixação.

Mas se enganara.
Ela só queria lhe extorquir mesmo.
No bilhete, categórica:

“Querido, agora já terminei meu curso, posso me virar sozinha.
Vou embora viver meu amor.
A Lurdinha deixa, ainda hoje, o Cássio, vamos viver juntas...se é que me entende.”

Não, ele não entendia.

E o Natal então mudou de cor pra ele.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Caça às Bruxas II

Ela correu pelos campos, rasgando os pés nas pedras do caminho,
Tropeçava, e se cortava,
o mato muitas vezes escondia espinhos e outras formas que feriam seus braços.
Suas pernas estavam cheias de carrapichos, mas ela corria como que anestesiada.

Ela sabia o que aconteceria se a encontrassem.
De novo a humilhação, de novo seu corpo açoitado, seus cabelos raspados, suas vestes queimadas...
Tudo o que era ela, tudo que era seu, espezinhado.

Seu corpo jovem escondia ainda as cicatrizes da última vez.
Sua alma, já não tão jovem, não escondia coisa alguma.
Ela lembrava da dor, suprema dor, de ver queimar tudo que era seu.
Cada papel, cada pedacinho escrito era um pedaço de si que levaram.
Seu pensamento, sua alma, queimada.
Na vã tentativa de banir dela o argumento,
o quente argumento de quem tem paixão pela vida.
Paixão que não se explica.

Desde pequena fora assim.
Quando amava escrevia como quem ria,
Quando perdia escrevia como quem busca,
Quando encontrava escrevia como quem canta.


Desde menina, fama de bruxa,
Escondia seus escritos como tesouro, fingia não saber ler, fingia não saber sonhar e mordia a boca escondendo a inspiração, o desejo a volúpia.
E assim,arquitetava seus planos, armava ciladas,
Enfeitiçava os amigos, desnorteava os inimigos.

Quando desistia era pra sempre,
Quando esquecia, ela matava, aniquilava, extinguia de si toda lembrança.
Quando gozava, dormia, aquietava, calava.
Loba, onça, ursa, bicho.
Bicho livre, forte.

Sempre soube que não era gente.
Sempre se sentiu fera.
Parecia gente, andava como gente, vestia como gente mas sentia com urgência de bicho.
De fera.

E agora era o bicho que corria pelo mato, na tentativa de salvar-se.
De salvar sua vida, seus papéis...sua alma.
De não calar mais o que era ela.
Bicho. Fera. Bruxa.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Inverno

Minha alma parece que paira fora do corpo..
O dia parado, para comigo também.
Meu coração, que sempre sai pela boca, agora parece calado.
Toda forma de busca parece não ter muito sentido,
E a espera silenciosa é a única resposta ao meu desassossego.

Existe um choro contido
em um lado escondido de mim.

Uma lágrima perdida, vertida pra dento,
Salgada demais, gelada demais,
caindo no escuro do que sou.

No escuro do que não deixo acender.
Do que não pode acender.

Tudo parece perdido demais,
devagar demais,
dolorido demais.
O céu cinza, pinta de cinza meu rosto, meus olhos, meu gosto.
Nem sei do que gosto, e que gosto tem.
Só sinto este cinza, em mim.
Cinza e salgado.
Em mim.
Dentro de mim.
E por fora também.
Em volta. Até onde alcança o olhar.
Gelado, Cinza e Salgado.
Caindo por dentro de mim.

Faz frio aqui dentro...em mim.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

bom mesmo é acreditar...

Bom mesmo é ter um amor,
amor calmo, leve, livre.

Amor pra por no colo, embalar.
Amor pra fotografar hoje, e vinte anos depois fotografar de novo,
com novas marcas, mas com o mesmo amor.


Amor daqueles que chegam e nos encantam a primeira vista,
Amor daqueles que vão e nos atormenta a alma,

Amor daqueles que se encostam e enroscam até o pensamento,
Amor daqueles que se afastam e levam consigo parte do que somos,

Amor assim...
Aquele que vem e fica.
Aquele que nos faz parar.
Aquele que nos ensina que é bom parar.
E parados, juntos, descobrimos que chegamos muito mais longe.

Amor assim, com gosto de eternidade,
sem idade.

Bom mesmo é ter um amor que coloque fim a toda busca,
e mesmo assim seja o motivo de todo o encontro.

Bom mesmo é acreditar que exista um amor assim...
até que ele venha...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

...acalanto.

Noite de primavera.
A perspectiva de ficar longe desta correria toda, é encantadora.

Juro que tem dias, e muitos são estes dias, que dá vontade de largar tudo,
ir pro meio do mato, subir numa árvore e viver só de comer larvas.

Eu gosto de gente.
Gosto de São Paulo.
Sou nascida e criada aqui,
e embora sempre tenha morado no extremo leste, desde sempre caminho no Centro frenético.
Meu pai sempre me levava pra caminhar por lá.
e mais tarde quando comecei a trabalhar, sempre foi na região do Centro, que nós da periferia chamamos de "Cidade".
Viaduto do Chá,
Praça da Sé,
Consolação...

...gente...gente por todos os lados.

Gosto de olhá-las e desvendá-las,
perceber-lhe os olhares, as paixões,
o brilho ou sombra que lhes inunda o olhar...
Gosto de sorrir e receber um sorriso de volta.
Gosto dos simples gestos de gentileza que permeiam o cotidiano.
Gosto de gente, assim, em estado bruto.

Gosto das construções antigas, algumas restauradas,
outras abandonadas,
Gosto de São Paulo.

Mas no vai e vem de um transporte público "inenarrável",
sinto-me muitas vezes cativa...prisioneira de uma cidade que vai explodir a qualquer momento.
...gente saindo por todos os cantos, como formigas desesperadas.
...gente sempre com pressa, sem tempo,
sem brilho nem sombra. Gente pálida.
Gente que se arrasta e arrasta a vida tal qual arrastasse correntes nos pés.
Gente que perdeu o rumo ou que nunca teve.
Gente que não gosta de gente, ou que nem lembra que é gente.
...
Nestes dias, o bom mesmo é largar tudo.
Largar tudo e correr pro mato.
Correr pra música.
Ouvir música sem compromisso nenhum, naquelas rodas de viola, ao redor da fogueira.
Gosto de por o pé na terra.
Gosto do cheiro de mato,
nem ligo pros pernilongos, muito embora eles me adorem.

A noite, a lua, me fascinam.
Por o pé na terra me alimenta.
Sinto-me parte da terra.

...
Enfim,
Noite de primavera.
Noite de música.
Promessa de acalanto.

...pra depois voltar pra esta gente toda.

Mas, voltar com brilho.
Ou sombra.
Tudo. Menos esta palidez mórbida que sinto estes dias.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Os cheiros calam.

Os cheiros falam.
Tinha esta exata percepção, que em nada chega a ser novidade,
pois todos devem te-la assim como ela.

Mas nela os cheiros também calam.
Encerram uma infinitude de lembranças, de saudades, de tormentos.

O inverno tem um cheiro de saudade dolorosa.
Quando se mistura com o mar, a brasa das fogueiras, e os ventos de chuva, quase a transportam pra um outro tempo.

Tempo onde todo o tempo parecia eterno.
Onde o tempo não contava.
Onde não se sabia ainda que a saudade tem cheiro.

Dos cheiros não há como fugir.
Não há como evitá-los.

Podia desviar os olhos da imagens, mudar caminhos, fechar velhos álbuns de fotografia,
Mas o cheiro do tempo, do ar, dele não podia se esconder.

Respira-se para viver.
Vive-se portando dos cheiros.
E os cheiros se embrenham pela alma, tiram a calma,
Relembram o adormecido.

Os cheiros calam toda vontade de esquecer.
Insistem em trazer a tona o que não foi e nunca será.
Não foi e nunca será, mas tem cheiro.
E assim, perfumado,
invade a vida de hoje, trazendo o que ontem não tinha forma alguma.
E se o hoje não tem forma, tem odor...

E assim pelo ar, ar que respira pra viver,
Vem a lembrança que faz querer morrer.

E é assim, respirando
Que percebe que os cheiros falam.
E falando lhe calam a alma.
Calam a vida.
Enchem de um silêncio perfumado seus pensamentos.
Seu ser. Sua vida.

Toda ela, calada...pelos cheiros.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Chocolate

Gósto de chocolate.
Por uma infinidade de motivos além do sabor.
Gosto pelo que ele tem de carinho escondido junto com o cacau.

A minha mais remota lembrança de alegria trazida por ele vem da infância...

Lembro de uma Páscoa em que não havia nenhuma perspectiva de renascimento em minha casa,
Minha mãe alheia a tudo,
fechada em seu mundo depressivo,
Minha irmã e eu acordamos e fomos surpreendidas
por três grandes ovos de Páscoa sobre a cômoda.
Eles eram enormes, lindos, coloridos.
Doces.
E me fizeram sentir tão querida, tão importante.
Afinal eram enormes ovos de chocolate.
Deixados pelo mesmo irmão que sempre que podia vinha nos ver e trazia uma barrinha de chocolate.
De vários tipos.

Naquela época o chocolate vinha em umas embalagens mais firmes, tinha um “quê” de coisa importante que hoje não tem...
Ou quem sabe os olhos de crianças emprestavam nobreza aquele pedaço de papel que embrulhava tão doce agrado.
Tão sagrado agrado.
Tão caloroso agrado.

Lembro do enorme sorriso que minha mãe sempre abria quando meu irmão lhe entregava a barra de chocolate.
Era comprado na venda do Sr. Pascoal, no começo da Rua de casa.
Ele sempre passava lá e trazia as três barras de chocolate.
E o rosto perdido de minha mãe se abria em um amplo sorriso.
E nossos sorrisos sorriam juntos com o dela.
E o doce do chocolate, era pra mim ainda mais doce.

Os anos passaram,
Jamais havia pensado no motivo,
Mas ainda sinto a mesma alegria quando recebo um chocolate,
Mesmo se for bem pequenininho.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

...Lavando a roupa suja...

Sábado a noite,
Naquelas conversas desocupadas no MSN,
eu e uma amiga solteira.

O Assunto é fatídico:
Casamento.
Namoros e afins.
Enrolar-se de novo.

Pra dificultar as coisas asseguro que tenho uma longa lista, das quais o cabra tem que preencher todos os requisitos, pra que eu possa pensar,
veja bem:apenas e tão somente, pensar, na possibilidade,
de amarrar meu jegue de novo.

Digo que contei pra minha mãe os itens e ela achou um absurdo eu querer que o “pobrezinho” lave a própria roupa,

Veja bem, eu não quero que ele lave a minha roupa,
Quero apenas e tão somente que seja capaz de lavar suas as suas próprias,
E não só as cuecas, como muitos se gabam de fazer, como se fosse um favor.

Minha amiga fica curiosa com o teor da lista, lá vou eu então enumerar:

O Camarada não pode ser ciumento,
Mas também, nada de me deixar jogada ao vento.
Cuidados sem posse.
Até por que não dá pra se possuir pessoas.
Só se possui coisas.

Deve saber partilhar na mesma medida que saiba manter a individualidade.
Deve entender que haverá amigos nossos, e amigos de cada um.
E que isto é bom.

Deve saber estar junto e saber estar só.
E saber que isto também é bom.


É imprescindível que goste de trabalhar, muito.
E que goste de descansar também.
Que goste da vida.
Na mesma medida.
Pode e deve gostar de futebol.

Se gostar de bichinhos,
Deverá saber banhá-los, limpar-lhes a sujeira, dar água e comida.
Não basta amar. Tem que cuidar.

Deve ter bom humor,
Mas é importante que tenha além da leveza, profundidade.
Deve ter o mínimo de consciência política.
Mas pelo amor de Deus, deve saber a hora de falar sobre suas convicções.



Não deve ser lindo, homem bonito dá muito trabalho e as vezes falta-lhe cérebro.
Mas também não pode ser um ogro.
Deve ter charme e saber usá-lo.


O sujeito deve saber cozinhar,
E mais que isto deve saber limpar a cozinha depois que fizer a comida.
Nada de deixar tudo imundo e se achar o máximo só porque sabe fazer um macarrão e largar tudo engordurado para eu limpar.

Caso goste de café, deve saber fazer.
Um homem que não sabe coar seu próprio café é um legume.

O sujeito, deve saber lavar suas próprias roupas.
E passar.
(minha mãe abominou este item. Me interrompeu na hora e disse que isto é um absurdo)
Mas veja bem, não digo que fará isto sempre, mas deve saber fazer.
Ou ganhar muito dinheiro pra pagar quem faça isto, sempre, por ele.

...neste ponto minha amiga também me interrompe alarmada:

-Eliana, não existe esta pessoa!

- Claro que existe! Eu sou assim. Item por item.

- Mas criatura, você é mulher. Não existe homem assim.

...Pois é.

Detalhe importante.
Eu sou mulher.
...
Enfim, na verdade a lista vai pro brejo na hora que nos apaixonamos.

Mas, falando sério:

Eu não sou ciumenta, mas sei bem fazer o sujeito se sentir cuidado.
Sei estar junto e sei estar longe.
Amo trabalhar.
Amo a vida.
Gosto de futebol.
Gosto de bicho e dou banho na minha cachorrinha.

Tenho bom humor.
Rio mais de mim do que dos outros.
Ah, esta parte ai das convicções estou aprendendo sobre a hora...
Por isto tem de ser alguém que me ajude com isto.

Não sou linda, mas também não sou uma ogra.
Sei cozinhar, e limpo a cozinha depois.

E, pelos Céus, eu lavo minha própria roupa!

...Minha amiga diz que isto é demais pra eles.
Minha mãe diz : Coitadinho, ai é demais!!!

...pois é.

Acho melhor eu apostar na tecnologia moderna e comprar o último modelo da Brastemp.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

...alma sem lua.

Noite sem lua,
Daquelas cujo breu já é o suficiente pra despertar temores.

Ela sai pra colocar ração para os cães.
A porta da sala fica na lateral da área, que é no segundo andar da casa.
Esta área tem continuidade em frente as grandes vidraças da sala.
E é ali que ela está quando uma vizinha grita:

“-Cuidado, tem um sujeito ai no seu quintal.”

O dito sujeito havia invadido uma casa, cerca de três abaixo da sua, pego de surpresa, subiu no telhado, e foi pulando de casa em casa até se deparar com o sobrado.

Ela,
Estática, sem coragem de olhar para trás...
Só queria alimentar seus cães e dormir.
Sonhar, talvez, com o amor que viria e mudaria toda sua vida.

Ele,
arfando, alucinado de torpor, embriagues, fome e medo se misturam.
Ele só queria conseguir alguma coisa pra vender e fazer uns trocados.
Precisava de mais uma dose para atravessar a noite.

E agora estavam ali.
Frente a frente.

Ele tenta se aproximar, tocá-la, mostrar que não lhe fará mal,
Ela vê em seus olhos o olhar de um animal.
Não vê o medo. Vê o brilho e identifica uma fera selvagem.


A vizinha que vê tudo da rua começa a gritar;
Os vizinhos acordam.
Sua irmã dentro de casa começa a gritar também.
Ela não tem como alcançar a porta da sala. Ele está no caminho. Olhos vermelhos. Olhos nos quais,finalmente ela identifica a fome. Fome e vício, nitidos no brilho do olhar. E naquele momento aquela fome, podia ser fome dela.

Só vê uma solução.
Começa a esmurrar os vidros da sala, até que ele arrebenta debaixo do seu punho.
Sente o caco de vidro se enterrar na carne do seu braço,
o sangue jorra.
Enfia a mão pelo buraco, abre o vidro, e joga seu corpo pra dentro.
Ainda se sente as mãos dele tentando pegar sua perna...

Já lá dentro ouve os vizinhos se aproximar.
Um deles tem uma enxada nas mãos.
Vários se juntam e caçam o homem.
...ela corre pro quintal a tempo de vê-lo sentado nas escadas protegendo o rosto com as mãos.

Naquele momento o tempo parou.

Seu peito se encheu de uma profunda dormencia e ela não viu mais uma fera.
Viu um homem, sozinho e com medo.Mais medo do que ela...

Medo da vida. Medo de seus vícios que o fizeram escória do mundo.
Medo do animal que carrega dentro de si.

Ela pede que o deixem ir.

E ele some no meio da noite...
Camisa rasgada, ferido...
Antes de partir lhe lança um ultimo olhar.
Ela nunca esqueceu aquele olhar de vício.
Vício e medo.
Escória do mundo. Bicho.
Bicho sozinho.

Naquela noite ela dormiu por cima do braço ferido.
E a alma, estava de outra cor.
Ficou com a cor da noite.
Alma sem lua.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cont Ato.

A pele.
O cheiro.
O riso.
A cumplicidade no olhar,
nas palavras.
O tênue fio que nos separa.
A linha, a divisória.
O instante que a ultrapassamos.
O momento exato que o contato passou a ser tato.

Tateamos mutuamente nosso corpo.
Tateamos com o olhar.
Tateamos com o olfato.
Depois com as mãos.
Por fim com a língua.

Nos encontramos um no outro.
Nos abrigamos um no outro.

Não somos mais um ou outro.

Somos nós.
Fincados,
atados,
entrelaçados.
Lambuzados.

Somos dois,
Mas sabemos a hora,
(E só nos sabemos)
Em que procuramos por nós dentro do outro.
E encontramos.

...me encontro no meio de ti, no centro de ti, na sua boca.
...você se descobre no meio de mim, no centro de mim, na minha boca.

...e nada mais importa.
Só seu corpo em mim. Assim.
Só o Tato.
O contato.
O ato.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Menino.

Naquele dia ele saíra pra sua caminhada mais cedo.

Acordara com o peito ardendo...ardendo de uma saudade inexplicável de alguém que ele não conseguia se lembrar quem era.

Tinha certeza que devia ter sonhado com alguém, e mesmo sem conseguir se lembrar com quem, a sensação de perda o incomodava demais para continuar na cama...
Desceu os degraus pausadamente,
suas filhas sempre ralhavam com ele quando descia os degraus saltando de dois em dois...
Aquilo também o incomodava: Ser tratado como criança era ainda pior do que ser tratado como velho.
Mas naquela manhã, por algum motivo, ele entendeu que devia descer devagar...

O sonho, aquele que ele não lembrava, lhe martelou os pensamentos enquanto comia uma fruta e coava o café.
“Pretinho” era assim que suas tias confabulavam entre elas na hora de tomar o primeiro gole do café recém coado.
Município pequeno, no meio de algum lugar, ou de lugar nenhum, quase todas as moradias de sua meninice eram de várias casas dividindo um mesmo quintal, e por certo tempo seus pais moraram no mesmo quintal com as tias...
E era assim de manhã e de tarde, quem coasse primeiro o café, naqueles grossos coadores de pano, gritava pra da outra casa: “Quer tomar um pretinho??”...
Nem sabia o porque de se lembrar daquilo agora, mas a memória correu solta ao aroma do café que agora, ele próprio coava...
Sem ninguém pra lhe fazer companhia.

Sorveu o liquido com pressa, como que pra espantar as lembranças e saiu pra caminhar.
A saudade, aquela inexplicável sensação de lembrança, perda e presença seguiam com ele o caminho.
Ele sabia que a devia ter sido um sonho.
Caminhou pelas ruas lembrando de suas musas.

A finada, companheira por anos, não lhe despertaria esta sensação... Quando ela se foi os dias sempre iguais de dor e morfina já lhe corroíam até a alma e foi um alivio seu último suspiro.
A enterrou na certeza do dever cumprido. Esteve com ela até o fim. Mas os anos de saúde não foram tão bons a ponto de querer morrer junto.
Depois disto resolveu aproveitar seu charme cinquentão e aí sim, vieram musas capazes de deixar saudades.
Mulheres de todos os tipos. Mulheres que marcam e se deixam marcar.
Boas lembranças.
Lembranças de volúpia e prazer, mas não de amor.
Portanto nenhuma delas devia ser a causa do seu “desgaste pós-sonhos.”.

Não se deixou prender, afinal, ao longo dos anos tudo o que fez foi cortar vínculos.
Tão logo pode deixou pra trás o Município de nascença, o quintal com as tias e seus “pretinhos”, e logo acustumou-se a visitar a mãe só no Natal. Depois, nem isto.
Mandava um cartão, um cheque e tava tudo certo.
Aquele menino levado, que olhava pro céu procurando pipas ficou para trás e ele nunca voltou para buscá-lo.
Incomodava o olhar da mãe, que sempre o fazia lembrar do menino que fora.

...sentou-se em um velho banco do passeio, e foi quando vindo de longe viu algo que fez seu peito se torcer:
Um cãozinho.
Um cãozinho todo branco, e com uma máscara preta ao redor dos olhos e orelhas.
Era igualzinho o cãozinho de sua infância.
Sem raça, vira-lata, seu pai o trouxe em uma caixa em uma fria noite de inferno.
Cuidou dele, o aqueceu com seu próprio corpo, lhe catou as pulgas, cuidou pra que tivesse água fresca...Mais tarde, correu com ele, rolou com ele, se sujou com ele.
Um dia, manhã de sol, bateram na porta pra avisar que o um caminhão de “Coca-Cola” havia atropelado o seu Menino.
Ficou preso na roda e rodou junto com ela.
Levou o bichinho pra um terreno baldio em frente de casa... enterrou ali.
Era um terreno rebaixado, e no fundo passava um córrego.
Ali fez uma linda sepultura, e deixou seu bichinho.
Na manhã seguinte voltou, e na outra também.
Qual não foi seu horror quando na terceira manhã encontrou a sepultura aberta, e lá embaixo, preso em galhos, na correnteza do córrego o corpo do seu amigo.
Um garoto já grande, conhecido por suas malvadezas, desenterrou e jogou-o no rio...
Mas o corpo não foi.Ficou preso.
E durante um tempo, que ele nunca soube dizer quanto, mas que nunca esquecerá o quão longo e doloroso, ele voltou lá todas as manhãs...e viu seu amigo se decompor no rio.
Nos primeiros dias chorava.
Chorava ali na beira do córrego e chorava a noite em sua cama.
Depois o choro secou.
E secou a alma também.

Nunca mais chorou por mais nada.
Não chorou quando se formou.
Nem quando casou.
Nem quando os seus pais faleceram.
Nem mesmo quando as meninas vieram.
Nem mesmo mais tarde quando os netos lhe trouxeram um nó na garganta ao falar “vovô”...

...De repente, sozinho ali, vendo aquele cãozinho passar ele lembrou do sonho.
Sonhara com o Menino. Era este o nome do seu cãozinho.
Então, ali, sentado, ele chorou...
Chorou copiosamente.
Chorou e bebeu suas próprias lágrimas, chorava e sorvia as lágrimas com gosto.
Deixou elas caírem até lhe lavarem a alma.
Alma pesada.
Alma de quem nunca soube se dar por inteiro.
Alma que só soube sentir saudades de um cãozinho.

...
Poucos dias depois, quando os netos foram lhe visitar encontraram-no rolando no jardim, com um filhote branco e preto.
E nos seus olhos, eles viram, um brilho diferente quando os chamou para se unir a brincadeira e lhes dizer que aquele filhote era um presente para eles...e que ele iria todas as tardes vistitá-los: aos netos e ao filhote...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Celular : Aparelho telefônico ou localizador???

Resistente que fui ao celular até o fim do ano passado, ainda me pego travando algumas batalhas com este aparelhinho...

Confesso que já estava me sentindo um dinossauro, o ultimo deles, quando me curvei a evidencia de que deveria ter um, mas mesmo assim não conseguia entender para que precisava ser achada quando estivesse indo, ou vindo....
Se estou em casa estou em casa, lá tem telefone, se estou no trabalho estou no trabalho, e se realmente for importante é só ligar nestes lugares...
esta era minha filosofia.

Pra que diabos preciso se encontrada no trajeto????Filosofava eu.
Você já respondeu a pergunta impertinente: “onde você está?”
“Estou indo, estou indo...”
Mas o povo quer saber a estação, o ponto de ônibus, o kilometro da Rodovia e tudo o mais que puder...Não se contentam mais em ver que você chegou na hora ou com atraso de 10 minutos....eles querem saber onde você está.
Eu costumo ser britânica, dificilmente me atraso, mas mesmo assim ainda recebo este tipo de ligação...
Juro que a vontade é gritar: "Estou a caminho, e estou no horário...onde estou não é da sua conta!!!!!!!!!!"
E quantas vezes você já viu, o sujeito ao seu lado, na estação Jabaquara responder: “Estou na Sé, daqui a pouco estou ai.”
E outra indo pra Barra Funda dizer: “estou chegando em Artur Alvim...mas vou atrasar um pouco...vi que ta um congestionamento...”Já perdi a conta de quantas e de quais diversas modalidades destas conversas já ouvi. As mais bizarras e hilárias.

Agora pensa: você sai do trabalho as 18 horas. 18h30 alguém te liga, você mal consegue se mexer e ainda tem que detectar se o celular tocando é o seu ou não...diagnóstico feito você atende e o sujeito do outro lado dispara: “onde você está?”
“Raios, estou entalada, tentando segurar a porcaria do aparelho, e tentando parecer educada enquanto respondo, pois tem dezenas de pares de ouvidos atentos a nossa conversa!!”...é isto que penso, mas respondo apenas: "estou no Tatuapé." Muito provavelmente ainda estou no Brás.

E os sons?
Meu Deus, são tantos e tão variados, mas ainda não adeqüei o meu aos meus ouvidos.
Quem já tentou me ligar no celular sabe minha incapacidade de ouvi-lo quando estou na rua.
Sempre tenho a sensação de que tem uma musiquinha me acompanhando, mas nunca lembro que é o bendito aparelho...e lá se vão dezenas de chamadas não atendidas. Chega a ser ridículo, mas só vejo que meu aparelho está chamando quando estou com ele na mesa do trabalho, ou no estante da sala de casa, a principio, lugares onde não precisam me ligar no celular...
...sem contar as infinitas vezes que o perco.
Mas, como uso ele de relógio, logo sinto falta e lá vou eu ligar e esperar pra ouvir o tal toque por perto...
Uma vez depois de muita procura, e muito aguçar de ouvidos, consegui localizá-lo dentro do cesto de roupa sujas, bem lá no fundo, pobrezinho...

...Mas, vida que dá voltas e modernidades que nos viciam, percebo-me completamente enredada pelo tal aparelhinho...
Dia destes, faltavam cinco minutos para o horário que combinei de minha filha chegar.... lá vou eu:
Disco o número e ao primeiro sinal de Alô, disparo:
“Onde você está????”

E não é que esta tranqueira é mesmo útil???

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Chão Azul

Noite linda,
Estrelas no chão, chão azul.

Contato,
Cheiro,
Toque.
Boca e pele.
Pele na pele.
Boca na boca.
Boca na pele.
Olhos que se devoram.
Movimento Lento,
Sentimento máximo.
Calma, alma...Tudo ser perde.

Água, pedra,
corpo no corpo.
Pernas e braços se misturam,
Se apóiam, se medem.
Se contorcem, se esforçam, se abandonam.
Desespero, tremor, ardor.
Corpos desfalecidos sobre lençóis.
Chocolate na boca,
olhos cor de noite,
Cílios Longos,
Noite Curta.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Alfredooooooooooo.........

Indescritível.
É assim que se explica a situação dentro de um vagão de trem, mega lotado, as 6h20 da manhã.
Nada que se diga para explicar, explica de fato aquilo.
Nunca se sabe ao certo onde acaba seu corpo e começa o corpo do outro.
Eu nunca tenho certeza de que minha perna é mesmo minha, ou se já estou cutucando a perna errada.

Manter o cabelo no lugar é impraticável, camisa passada é perda de tempo, e bolsas um verdadeiro estorvo.
Mas ainda assim é possível render umas boas gargalhadas.
Pensa na cena:
Vagão hiper, mega, super lotado, povão apinhado, sem espaço pra por os dois pés no chão,
(é sério: Você tira o seu pé e logo descobre que não dá pra por de novo...levanta o braço e nunca mais pode descer....)

Enfim... Estamos lá nesta situação limite, e o jeito é fazer amizade logo com o cabra que está colado em você, tratar de puxar uns assuntos bem broxantes, antes que no silêncio a mente dele comece a maquinar e você se veja na péssima situação de ter que dar uns safanões em alguém, logo cedo...
Entre um solavanco e outro, apaga a luz, e, cadê o ar-condicionado???Já era.

Os baixinhos se ferram, o ar some primeiro pros nanicos, o calorão sufoca e a sensação térmica é a da boca de um dragão. Muitas vezes a sensação olfativa também.

O sujeito do lado, aquele que até um minuto atrás eu odiava, pois me cutucava as costelas sem dó, liga pro 0800 da CPTM e mostra que celular no trem não serve só pra tocar música feia e acabar com o humor da mais alegre das criaturas.
'
- “Cara, o trem que ta passando na estação Patriarca tá sem 'oxigênio'. Dá um jeito nisto, avisa alguém ai...tem gente demais aqui, cara. ‘Tamo’ sem ar....Como é seu nome? Alfredo? Ta Alfredo, obrigada”

Alfredo???
Logo alguém lembra: “Mano, o cara vai vir trazer o papel pra gente?
”O cara vai aparecer correndo do lado do trem, com o papel higiênico na bandeja!”
Risada geral.

Alguém passa mal, e lá vai o pobre coitado que se matou pra sentar, levantar pra sujeita se recuperar do mal estar.
Lembro de contar de quando um sujeito de quase dois metros passou mal atrás de mim, depois de sentarmos o cabra, a moçoila do meu lado resolveu especular o motivo do mal estar do rapaz:
-Você comeu?
-Não.
-Tem que comer meu senhor, se não passa mal mesmo..blá, blá, blá, blá, blá, blá....
-Minha filha, deixa o cara. Ele ta passando mal. Você tem uma rosquinha ai pra ele comer? Se não tem fica quieta.
-Rosquinha? Só se for a sua!
-Minha filha, rosquinha lá em casa é bolacha, se na sua casa é outra coisa, problema seu!

Pela risada geral do povo, na hora que contei da rosquinha, percebo que realmente rosquinha é outra coisa; pra todo mundo.

Foi o tempo de pararmos de rir e o ar voltar a funcionar.
Viva o Alfredo!

Logo se ouve:
-Respira, respira... vai que desligam de novo.
O povo ‘dana’ a rir de novo.

...e assim chegamos no Brás.
Amassados, como se uma vaca tivesse nos mastigado e nos cuspisse na plataforma, mas com cara de bobos, rindo.
Dizem que brasileiro é assim. Povo feliz.
Não sei se é coisa de brasileiro, pois nunca conheci outros povos, mas lembro que “Rir de tudo é desespero”. Acho que é mais por ai.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Vertigem

Vertigem.
É a primeira sensação.
Frio.
Não um frio comum,
Mas um frio daqueles que começa na espinha e termina na alma.

E o silêncio repleto de significado, paira no ar com peso de chumbo.
Quase consegue tocar o silêncio.
Não há mais riso, não tem mais música,
Só o silêncio.
Estático passa os olhos pelos mesmos lugares,
Outrora cheios de vida, agora perdidos debaixo de uma fina poeira.

De novo a vertigem.
O chão?
Cadê o chão?
Ele estava aqui ainda há pouco, agora cadê?
Tenta se sentar, pra recobrar a sensação de apoio.
Mas não há apoio.
As paredes também sumiram, o teto, o quintal...
Toda a vida evaporou.

Antes o ar era respirável, agora insuportável.
Seco. Quente.
Contraditório.
Respira um ar quente, que entra e congela tudo por dentro.
Devora-lhe por dentro o frio, e por fora o calor.

O coração faz eco, no silêncio da noite.
E o chão?
Não o encontra mais, mas sabe que ele está ali
Debaixo dos seus pés....mas onde estão os seus pés???

Sempre achou que o vazio não tinha forma.
Agora percebe que tem.
E tem cheiro também.
O vazio tem gosto,
O vazio tem cor.
O vazio tem consistência e aderência.
Adere na pele, impregna-se em cada canto do corpo.
O vazio se esconde debaixo das unhas,
no meio dos cabelos.
O vazio ocupa tudo, no meio das prateleiras,
Entre os bibelôs, sobre os enfeites de porcelana...
O vazio se mostra, grande, suntuoso, ofuscante.

Antes ela estava lá.
Falante.
Pulsante
Amante.

Agora era vazio.
A Tal presença da ausência de quem falara o poeta.

Vertigem.
De novo.
De novo o silêncio sepulcral.

Na espinha o frio.
Na boca o amargo.
Gosto amargo do dia seguinte.
Dia seguinte de um futuro perdido.

Ela se fora...
Sem meios, sem motivos, sem porquês.
Ela se fora.
Sem nem mesmo olhar para trás.
Na verdade ele sabia os porquês.
Todos eles.
O problema todo fora os porquês.

E agora, só vertigem.
Sem porquê algum.
Ela se fora.
E não voltaria mais.
Se bem a conhecia, ela não mais voltaria.
Não levara nada, e mesmo assim ele sabia que ela se fora.

Aquele vazio contava pra ele que ela se fora.
Não o vazio dos armários.
Nem o vazio das panelas.
Nem mesmo o vazio da cama.
Mas sim
O vazio no ar.
Ocupando tudo.
Dando forma a tudo.

Vertigem.
Era esta a primeira sensação do fim.
Ele sabia.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Positivo.

Lembro que a principio parecia inadmissível.
Sim, eu já sabia como eram feitas as criancinhas,
Meu pai, incansável, me explicara tudo e todas as formas de não tê-las sem prever,
Mas, ainda assim, eu tentava me convencer de que
todo aquele mal estar devia mesmo ser alguma doença incurável.
Não era um enjôo normal,
era daqueles de te jogar no chão, agarrada ao vaso sanitário sem o menor pudor, e ali prostrada colocar até a alma pra fora, pela boca, e com muito barulho. Pior do que a pior das ressacas.

Acordar cedo? Uma tortura sem precedentes... Aliás, acordar, fosse cedo ou tarde, era uma tortura.
Arrastava-me em direção ao trabalho, com correntes nos pés e carregando um tronco nas costas...
Sono constante.
Enjôo? Da comida, dos cheiros, de todos.
Chegava na estação República, do metrô, subia um lance de escada e agarrava uma lixeira.
Subia outro lance, outra lixeira.
Horrível. Deprimente. Um verdadeiro vexame.

Vencida pela evidência só me restava fazer o fatídico exame.
Acompanhada por uma amiga, lá vou eu.
Coleta feita, resultado só sairia no fim da tarde, e ainda eram 09h00.

A amiga, me leva pra sua casa e solidária ao meu súbito silêncio, me deixa só.
Só pra pensar na vida. Na minha e na que viria, fosse o resultado o óbvio.

Já nesta época a responsabilidade financeira com a casa era minha.
Desde muito cedo havia sido assim.
Homem da casa. Contas na ponta do lápis
Isto me dava uma enorme autonomia, muito embora sentisse o peso nos ombros.
Ombros de menina que buscava ser mulher.
Lembro que só esta certeza me impulsionava: A certeza de que não haveria ninguém apto a me cobrar.

Não havia outra possibilidade. Era enfrentar ou enfrentar.
E eu enfrentaria. De nariz em pé.

Fim de tarde
Resultado pronto,
Escrito a mão, me permitia não entender.
Olhava, olhava, mas não entendia o que estava escrito ali.
A amiga traduz o que meus olhos não queriam ver:

Positivo.
O resultado que iria mudar minha vida.
O amor que iria mudar minha vida.
Amor visceral como costumo dizer.
Dolorido. Entranhado.

Foi assim que ela chegou em minha vida.
Sem esperar, mas muito bem vinda.
Sem esperar, mas perfeita pra fazer da menina, mulher.
Meio na marra, meio dolorido,mas bom.

Hoje sei que se não fosse ela eu não seria o que sou.
E gosto do que sou.
Positivo, o resultado. De Fato.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Devora-me.

Devora-me a tua boca,
toda ela,
Se perca em meu corpo
em todo ele,
E assim inteiro perdido encontre-se no meu desejo,
Desejo crescente, em mim.

Sem pressa, sem medo,
Deixa eu sentir tua textura, na ponta da língua,
Desfalecer nos seus braços, devorada por seu desejo,
embriagada por seu contato,
pelo seu cheiro e sua força em mim.
Deixa que eu me perca no seu olhar, no seu sorriso,
Sem ontem, hoje ou amanhã.
Só este agora desmedido e incontido, perdido.

Deixa eu te sentir
No dente, na pele, na unha, no gosto, no cheiro,
Sem tempo,
Sem rótulos, sem marcas, sem restrições.
Deixa que o depois se perca, e que nunca o encontremos
Que o agora seja tudo e o depois uma mentira.

Que importa os nomes? Os endereços?
Que importa todo o resto se tua boca me devora?
Que importa os caminhos, os minutos, o relógio a distancia,
Que importa um ontem inexistente, um amanhã incompleto se o agora nos bastar?

Que importa todo o resto e todo o mundo se a tua boca me devora?
Devora-me.
Com tempo e sem paciência.
Com insistência e sem receio.
Com gosto, com força, com jeito.
Devora-me até que eu me perca completamente,
Sem destino, sem caminho, sem meios, só encontrada em ti.
No meio de ti.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Dois botões, de rosa, na multidão.

Quem a visse agarrada com aqueles dois botões de rosa, a principio daria pouca importância.

Alias, daria pouca importância de qualquer forma;

diante das circunstancias:
São Paulo, horário de pico.

Milhões indo.
Sabe-se lá para onde.
Mas todos resolvem ir, no mesmo horário, e se tem a impressão que todos vão pro mesmo lugar.
Com muita pressa.

E, as vezes, com muita raiva.
Sabe-se lá porque, também.
Mas o fato é que resolvem expor seu lado “perverso” ali, no meio da multidão, bem na hora de entrar, ou sair, do coletivo.
Talvez seja raiva, da esposa, do esposo, dos filhos,do patrão, do empregado, do desemprego, “do” ou “da”amante...(Se bem que destes não se tem raiva, afinal eles são escapes pra aliviar a tensão, ao menos no principio...depois vira tudo a mesma coisa, e quem tem raiva da vida, fica também com raiva dos amores).

Enfim...
Multidão raivosa
Ou pacifica,
Como bois conduzidos pelo berrante.
Mas, naquela hora, sempre multidão.

Multidão.
E multidão espremida,desde a plataforma para embarque...
Proximidade extrema,

Ali se exercita na marra a capacidade de amor ao próximo... Ou você ama muito, ou se torna um psicopata.

Paciência a toda prova.

Isto ela tem de sobra.
Afinal fora esta paciência heróica que lhe premiou com aquelas rosas.
As rosas.
Sim, os dois botões de rosa...
...que carrega agarrada, junto ao peito.

Além da paciência tem também algo de supersticioso.
E ela “sente” que precisa levar intactos, ao menos dois dos botões daquele lindo buquê, ganho naquela manhã.

Ela soma agora 50 anos.
Trinta e três anos.
Esperou trinta e três anos pra receber aquele pedido de casamento.
Ainda menina, 17 anos, no interior de Minas Gerais, conheceu o amor.
Mas, daquelas histórias que não se sabe como, nos desencontros das bocas, se perdem pela vida,
eles se perderam.
Se casaram, com outros amores que a vida lhes trouxe.
A vida se encarregou de distanciá-los.

E, mais tarde, de aproximá-los.
Ela separou-se. Ele enviuvou.
Ele, voltou, a Minas no intuito de reencontrá-la.
Reencontrou.
Ela, não resistiu e veio visitá-lo em São Paulo.
Como manda a regra, saíram para jantar.
E jantaram.


Mas a fome que tinham não se resolvia na mesa do restaurante.
Era fome de dizer o que não foi dito, por tantos anos.
Fome daquelas que se descobre, rápido, que na verdade é melhor não dizer mais nada.
Não é preciso.
E desta vez, as bocas se desencontram,
mas se descobrem no corpo.
E ali se encontram.
E se perdem de novo, num vai-e-vem que tem o intuito de desvendar segredos e partilhar odores e gostos.

E, na manhã seguinte, antes do horário gritar que o ônibus não espera na rodoviária,
Ela recebe o buquê de rosas.
E o pedido:
“Casa-te comigo, porque tu és o ar que respiro.”

Não há tempo pra pensar.
Sai apressada...
Não pode perder o ônibus.
No caminho deixa o buquê.

...mas recolhe dois botões.

Eles lhe lembrariam que havia um pedido a ser respondido.
Eles lhe convenceriam que havia sentido em tanta espera.
Eles fariam dela, alguém especial na multidão.

Os dois botões entraram na estação Brás e saíram na estação Sé.
Intactos.
Protegidos, por um olhar atento.

Olhar que a viu se perder na multidão da estação Sé...

Por causa dos dois botões de rosa, da maneira como os segurava, ela se tornou única, no meio da multidão...

...e na multidão anônima, ninguém nunca saberá se um dia ela aceitou o pedido feito, na entrega das rosas.
... isto não importa...afinal...é horario de pico, em São Paulo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Rugas.

Hoje descobri uma nova ruga no meu rosto.
Gostei dela. Até tirei uma foto.

Lembro que a primeira que eu notei foi aos 25 anos. E lá se vão quase 08 anos.

Naquela época pareceu-me uma afronta da natureza lembrar-me que o tempo passou, sem eu notar.
Que a menina que eu sentia em mim, agora se escondia dentro de um outro corpo, que envelhecia...

A ruga.
Foi ela na época que me trouxe a lembrança de que o tempo passa, e é curto demais.
Foi ela que me assustou com a gritante verdade de que, como tudo na vida, passamos também.

Uma ruga.
No canto da boca.

Aos 25 anos comecei a viver a Crise dos trinta.
Eu não podia chegar aos trinta sem antes valer as rugas que ganharia até lá.
Sim, afinal sempre havia visto beleza na maturidade, mas as rugas estavam chegando e a maturidade cadê????Força eu já tinha faz tempo, mas e coragem pra assumir esta força??

Por causa das rugas,
por respeito a elas, e ao seu sublime significado,
eu resolvi que era hora de assumir minhas verdades. Ou pelo menos partir em busca delas.
Ai vieram várias outras...

Crises e rugas.
Todas muito bem aceitas.


Descobri que elas falam muito.
De mim e dos outros.

Mostram-me o tanto que eu ri. O tanto que se eu chorei
O tanto que apertei os olhos pra ver melhor ou pra fugir do sol.
Contam-me dos meus dias, das noites que dormi bem, quando elas quase somem...
Das noites mal-dormidas em que elas se evidenciam.

Contam-me do amor bem feito, que me fazem esquecer que elas existem.

Gosto delas.
Desta de hoje especialmente.
Ela me mostra a mulher que me tornei,
na certeza de que minha história só começou e eu já estou no lucro.

...sim. Gosto das minhas marcas.
Principalmente as de fora.

As de dentro preocupam muito mais.

“Hoje ando devagar, por que já tive pressa...”

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Na falta de tempo, música...sempre!

...Uma semana sem passar por aqui.
...quem nunca sonhou em ser dois, nos tempos de tempo curto e atividades frenéticas???
...pois é.
Se descobrir a poção mágica pra isto manda pra mim, estou precisando.

Enquanto a vida real continua, e cada um de nós é um só, o jeito é anotar cá e lá, os detalhes da vida...pra não deixar a vida passar.
...e isto eu tenho feito.

Hoje vim marcar minha semana lembrando aquilo que desejo pros amigos.
Lembrando do que tento viver.


Amor pra recomeçar
Frejat

Composição: Frejat/Mauricio Barros/Mauro Sta. Cecília

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade temPrazer e medo...

E com os que erramFeio e bastante
Que você consigaSer tolerante...

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro

E que você descubraQue rir é bom
Mas que rir de tudoÉ desespero...

Desejo!Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amorPrá recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em umVocê possa confiar
E que tenha atéInimigos
Prá você não deixarDe duvidar...

Eu desejo!Que você ganhe dinheiro
Pois é precisoViver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmoO dono de quem...

Desejo!Que você tenha a quem amarE quando estiver bem cansadoAinda, exista amorPrá recomeçar...Eu desejo!Que você tenha a quem amarE quando estiver bem cansadoAinda, exista amorPrá recomeçarPrá recomeçarPrá recomeçar...´"

É isto ai. mesmo bem cansados, que tenhamos sempre amor pra recomeçar.
Tudo. Sempre.

Amanhã é um novo dia.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

21/08. Um bom dia pra recomeçar a olhar o Luar.

Acabo de ler um dos excelentes textos da Vivi... Inclusive, anote ai, vale muito passear por lá http://preteritopassado.blogspot.com/,

Amanheci com aquela dor bestial que sentimos no fim... mesmo quando sabemos que o fim era a única atitude digna a ser tomada.

Aquela coisa ridícula de lembrar que era pra ser “até que a morte os separe.”

E ai você descobre que pra continuar aquilo teria mesmo que morrer.

E até se finge de morta.
Mas só dá certo por um tempo.
Depois desconfia que se já está morta mesmo, então pode por fim naquela brincadeira de mal gosto, onde só os outros estão bem felizes por vocês não entrarem para as estatísticas do divórcio. Divórcio este que já completou maioridade há um tempão, mas que ainda causa sensações diversas, das mais primárias.
Ouvi coisas das mais absurdas, todas no “bom intuito de preservar a família.”
Mas o que é família afinal?..Isto já é outra história... Outro texto que deixo pra outro dia...

Voltemos à dor bestial.
Chamo assim, pois é o cúmulo da “burrice” sentir dor quando é o certo, você sabe.

É o melhor,
o mais digno,
a saída mais honrosa,

Mas nem por isto dói menos.

Ai lembro que certa vez um querido, que tenho a ousadia de chamar de amigo, me lembrou que tudo passa. Absolutamente tudo na vida, passa. E esta lembrança não tira a dor, mas me permite senti-la sem culpa.
Vai passar também.
E se dói, é natural.

Dói arrancar espinho da carne.
Muitas vezes dói mais tirar, do que deixar lá.
Com o tempo a carne acostuma com aquele ser estranho e nem dói mais...
e é ai que mora o perigo...
acostumar-se com algo que não devia estar lá...mas está.
É feio, infecciona , nada produz, mas acostumamos a deixar lá...

Sempre tive muito medo de me acostumar com a vida, ao contrário de vive-la.
Me arrastar pela vida, ao invés de dançar com ela.
Eu já chamei a vida pra dançar comigo, há muito tempo.

Não acredito mais em uma porção de coisas que já acreditei um dia,
Mas ainda acredito que isto aqui tem de valer a pena.
Esta coisa que pulsa, e não é sangue, esta coisa que incendeia meu peito, esta coisa forte que sinto por dentro, na alma, isto tem de valer a pena...
Esta coisa chamada vida tem que valer a pena. Tem que valer o risco.
Mesmo que pra valer a pena, às vezes, tenha de doer.


Enfim....
Estava assim, com esta coisa estranha, que fica na garganta, na hora de consumar o adeus e li um texto, do blog que indico lá em cima, que me fez lembrar que nunca gostei de brincar de casinha.
Talvez seja esta a questão...
preciso brincar do que gosto.

Por hora, vou lembrar que dia 21 é também dia de tributo em homenagem aos 19 anos em memória de Raul...vou lembrar que vou poder sair em passeata como a adolescente que um dia não fui, vou poder sentar na praça, rir sem motivo, chorar se for preciso, sem dar explicações...Vou lembrar que já foi pago o preço que foi preciso pra garantir o que é meu por direito: Ser eu mesma.

Esse eu assim, meio louco, meio incerto, meio curioso, meio menina...Um eu assim, todo meio, pra poder ser inteiro, só eu.

Então olho pro céu, vejo aquela lua enorme (e que lua!!! alguém viu a lua hoje as 20h00?? Estarrecedora de tão linda!) me sinto forte, a dor quase some...fica a certeza de que mais uma vez, fiz o que devia ter feito. E ponto.

18/08/2008 – Segunda-feira. Segunda-feira de um luar apaixonante...

"Lua Bonita, se tú não fosses casada, pedia ao Nosso Senhor, pra contigo me casar!!!"

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Presidente da República?

“Você ainda será presidente da República....”

Este era um de seus muitos delírios.

Lembrava dele assim: Delirante, empolgante, andar apressado (sua mãe falara que ela herdara dele este costume), óculos equilibrado na ponta do nariz, enquanto parava entre uma passada e outra pra ler algo dos muitos papeis que sempre carregava.

Ele costumava falar: Um dia você vai dizer: "Nunca vi meu pai sem um livro na mão."
Dos livros ela não tinha certeza, mas papeis... isto ela sabia: Ele sempre andava com muitos!
De quando em quando entregava-lhe um e ordenava:
- Lê pra eu ouvir.
E ela lia.
Já preocupada em observar os detalhes pois sabia que depois viria o questionário...
e também tinha as vírgulas, os pontos a intonação da voz...Devia prestar atenção em tudo, pra despertar-lhe o orgulho. E devia fingir muito interesse também, pois isto renderia a admiração dele.
Quase sempre era um texto dele mesmo, que trazia para ela ler...egocêntrico e apaixonado por suas próprias ideias ele fazia dela sua plateia.
Mas tinha outras.
Afinal para ele o mundo era sua plateia.Uma plateia que ele queria marcar.
Em seus muitos planos, o principal era deixar sua marca enquanto mudava o mundo.

Desta vez ele a fez ir em uma passeata dos “sem-terra”, ou “sem-moradia”, sei lá o termo certo, o fato é que eles se organizaram e invadiram uns terrenos perto de onde ele morava...e lá estava ele. No meio. Ajudando a marcar os terrenos, a organizar a coisa toda... E lá estava ela...com ele.

Uma chuva danada e ela andando, a Av: Nordestina todinha, debaixo de chuva, de Guainases a São Miguel Paulista. Com faixas e gritos de ordem. Foi dai que ela adquiriu seu gosto pela chuva.

Dias antes, em confronto com a policia morrera um dos “sem-terra”, Adão.Ela nunca esquecera este nome...
Ela, emocionada, resolveu escrever um texto e imitando-o deu para ele ler.
Ele, certo de que nascia ali uma revolucionária, resolveu lá no local da concentração chamar os jornalistas e dizer que uma criança tinha um texto para ler, sobre o Adão.
Ávidos por noticias do acontecido, juntaram–se em seu redor: luzes, câmaras, microfones.

Ela: papel molhado de chuva, esmigalhado, as mãozinhas pequenas tremendo na vontade de que ele tivesse orgulho dela
Leu, com ponto, vírgula e com sua melhor intonação!

Assim que acabou seu belo texto, o primeiro que pôde perguntou:
- Você viu a hora que o Adão tomou o tiro?
- Não. Eu soube pela televisão.
Silêncio.
Então ela não era uma pobre menina, sem terra e sem lar, que viu um ente querido, na luta por dignidade, tombar diante de seus olhos???
Imediatamente as luzes cessaram, os microfones se abaixaram e todos lhe deram as costas...

Ela queria que um buraco a engolisse.
Cadê ele? ...estava em algum lugar, tentando mudar o mundo.

Ela ficou ali, sozinha.
Com o seu papelzinho roto nas mãos, uma vergonha que lhe engolia a alma, e uma certeza:
Ela não queria ser Presidente da República.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Amnésia

Aos setenta e quatro anos ela acordou se sentindo velha.

Até ontem não havia percebido que aquelas dores nas pernas não eram passageiras.
Até ontem ela acreditava que a dor nas pernas era por conta das escadas. Ah, quantas escadas, por toda parte.
O alongamento diário parecia não mais fazer efeito, diante de tantas escadas.
E as escadas nem pareciam tantas, quanto o falecido comprou aquele sobrado.

Mas naquele dia, quando olhou no espelho se deu conta de que a pele já perdera o frescor da mocidade, os cabelos mal cobertos pela tinta, já eram ralos, sem brilho...
Naquela manhã se deu conta de que sua mão já não tinha a mesma agilidade e firmeza. E ela não havia tomado sua taça de vinho.
Sentou-se na velha poltrona do quarto, e ficou horas olhando a copa das árvores.
Lembrou-se de como aquela paisagem lhe alimentou por tantos anos,
De quantas vezes sua alma só encontrou calma no verde das folhas em contraste com o azul do céu.
Lembrou-se de como, anos antes, ali naquela mesma poltrona ela alimentou seu filho, e antes ainda, ali também amara seu único homem.
E o amara muito e de diversas formas por diversas vezes. Tantas e incontáveis vezes.

Durante toda aquela manhã ela tentou se lembrar de quando havia envelhecido e nem percebera.
Sim, as rugas já estavam lá há muito tempo, disto ela sabia, pois já lhe davam lugar nos coletivos há pelo menos uma década e meia.
Mas aquela canseira... Aquele enfado... Aquele medo de descer as escadas e descobrir que não conseguiria subir novamente...
Aquilo era novidade.


Aos setenta e quatro anos ele resolveu então, ter amnésia.
Colocou um moletom, camiseta com foto do Raul, um tenis no pé...Daqueles sem cadarço,
Passou batom, escolheu um anel bonito e um enfeite pro cabelo.
Desceu as escadas lentamente...
Antes de sair, jurou que iria mudar seu quarto pro andar de baixo.

Afinal, aquelas escadas estavam acabando com suas pernas!!!

Sou asas e sou raiz

Sou de múltiplas facetas.
Eu sou louca.
Sou filha da lua.Alma nua.
Sou assim: integral.

Eu sou da terra e do ar.
Conheço o gosto da lama do fundo do poço,
Eu sei do cheiro do ar da mais alta montanha...

Sou assim :Sou extrema.
Sou pra guerra a mais forte guerreira E pra paz sou aquela que ri...
Quero paz, ri pra mim.

Já perdi e conheço o gosto amargo do adeus,
Já morri e conheço o que é não ser mais.
Hoje vivo e sei quem eu sou,

Sou Menina, tenho medos,
Sou mulher...e não tenho medo de nada...Só de mim.

Sou a Vida e a vida emana de mim: eu sou mãe.
Sou Mãe de minha filha e mãe de minha mãe.
Nunca soube o que é ser filha.... por isto, peço colo.

Sou irmã e sou amiga de meus irmãos.
Sou amiga e sou irmã dos meus amigos.

Na independência esta minha força.Mas quero ser fraca.

Sou desatinada, desmedida e incontida.
Mas sou centrada.
Sou asas e sou raiz.
Pode apostar:Sou Eliana Klas.

(08/07/08)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Caça às Bruxas

Escrever era como voar, se asas ela tivesse...

A alma pedia calma,
e calma ela só tinha quando escrevia..

Escrever era dolorido,
Colorido,
Era suspiro que saia das letras,
Letras que paria como um filho...

Mas escrever tornou-se um pecado, tornou-se a denúncia de que sua alma voava...
o que antes era gesto de liberdade se tornou arbitrariedade, contrariedade.

Tornaram medíocre o que pra ela era santo.

Viu todos seu papeis ardendo em uma fogueira,
seus sonhos de menina dilacerados, seus projetos de mulher enxovalhados,
sua vida exposta, sem direito de resposta.


Rastejou no meio das cinzas,
recolheu pedaços do seus versos, sentindo ainda o calor das brasas...
Sua carne queimava, mas ela nem sentia...
Doía- lhe os papeis que se perdiam para sempre...
Doía-lhe os versos roubados; muito mais do que a vida que lhe seria tirada.

Como animal lambeu seus folhetos, enxugou-os na pele, na vã tentativa de recuperar sua alma.
Mas era tarde...A multidão embrutecida já notara que ela se preparava pra voar novamente...
Tiraram a pena de sua mão, rasgaram todos os papeis, esconderam as tintas...
lhe condenaram a morte.

Ninguém percebeu que quando seu corpo pendeu sem vida, a vida já havia lhe deixado, muito antes...no minuto que lhe tiraram os versos.


Eliana Klas.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Tá tudo bem.

Ela voltou atrás e ligou pra ele.
Ela estava decidida a não voltar atrás.
Mas voltou.
Afinal ele era seu pai.
O dia anterior fora o dia dos pais e ela não fora vê-lo.
Acordou com gosto amargo na boca, gosto dos que não souberam esquecer.
Perdoar era forte demais, ela não se dava o direito de julgá-lo a ponto de perdoar ou não.
Mas não conseguira esquecer.
Ele sempre a fazia lembrar.

Mas então ela lembrou que ele também trazia no peito uma dor.
Lembrou também dos passeios a pé pelo Centro da cidade que ele lhe apresentou...
Dos bancos de praça que ele se sentava cheio de papeis pra analisar e lia pra ela seus sonhos no papel...
Lembrou que foi ele que levou seu olhar pro Teatro Municipal, pro Viaduto do Chá, como um guia turístico, mostrando cá e lá...
Era disto que ela lembrava mais e ele tinha de saber.

"- Pai, eu te amo. Pode não parecer mais eu te amo.
- Ta bom. Tá tudo bem. Isto a gente conversar outra hora."